Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 14/05/2020

No ensaio “Sociedade do Cansaço”, Byung-Chul Han, critica a atual sociedade em que apenas as pessoas super produtivas possuem valor, não importando o seu estado mental, apenas sua produção. Em face disso, a biotecnologia atende a esse desejo, possibilitando a manipulação genética de embriões humanos tanto para evitar doenças quanto para melhorar, posteriormente, as performances humanas. Contudo, a ética se apresenta como um agente regulador dessas manipulações e sua ausência corrobora para uma segregação biológica, e ainda impossibilita o indivíduo, na condição inicial de embrião, a exercer seu desejo livre e consciente.

Sob esse viés, o filme “Gattaca”, retrata uma sociedade em que indivíduos são escolhidos em laboratórios e apresentam características intelectuais melhoradas, obtendo assim, validação e valor social maior em comparação aos concebidos biologicamente. Dessa forma, definir os limites éticos da manipulação de embriões humanos se torna uma questão social, uma vez que, assim como no filme o determinismo genético acarretou uma segregação a nível biológico, na atual sociedade esse mesmo cenário se repetiria. Portanto, permitir que avanços biotecnológicos progridam sem ponderar questões éticas, é assumir um risco elevado de atenuar ainda mais a estratificação social, levando-a para uma esfera de combate muito mais densa.

Outrossim, para a teoria concepcionista, o embrião humano é um indivíduo em desenvolvimento, que merece o respeito e dignidade que é dado a todo homem, a partir do momento da concepção. A partir disso, tem-se a interferência genética desrespeitando essa pessoa, uma vez que essa ainda não tem condições minímas de fazer escolhas consciente. Além disso, essa remodelagem gênica determinará diversas condições e implicações de vida para esse ser humano, favorecendo-o ou prejudicando-o, mesmo que ele não tenha concordado em participar desse procedimento ou experimento, e nem assumido os riscos inerentes.

Nesse sentido, para evitar a segregação genética e resguardar as condições de vida desse embrião é necessário que o Conselho de Bioética (ConBio) e a Comissão de Saúde da OAB, promovam por meio de eventos, como simpósios nacionais, discussões acerca dos desdobramentos científicos no que tange a manipulação de embriões humanos, com a finalidade de definir os parâmetros éticos e legais. Além disso, cabe ao Ministério da Saúde em parceira com o Conselho Federal de Psicologia, elaborar uma cartilha com o intuito de transmitir informações a respeito do tema e conscientizar acerca das implicações dessa técnica em humanos. O efeito disso será uma sociedade consciente dos desdobramentos dessa manipulação e  que caminha para  enfraquecer a " Sociedade do Cansaço"