Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 23/09/2020

O livro “Frankenstein” de Mary Shelley narra a história de um médico homônimo obcecado por produzir um homem artificialmente, até que um dia consegue, mas a sua criação se volta contra ele. Semelhantemente, na contemporaneidade, ocorrem debates sobre os limites das modificações e manipulações genéticas de pessoas e animais. Sob tal ótica, a ética é imprescindível para o respeitos dos direitos humanos durante uso da biotecnologia, todavia há dificuldades em conciliá-las devido aos dilemas em relação ao desenvolvimento da espécie e à visão da ciência como um fim em si.

Inicialmente, tentativas de aprimoramento humano podem levar à discriminação e segregação. Por exemplo, durante a Alemanha nazista, a raça ariana era vista como superior, o que acabou acarretando na exclusão e posterior genocídio dos grupos considerados inferiores como judeus, negros e homossexuais. Diante disso, a alteração de genes em embriões para selecionar características mais favoráveis é um processo que serviria para a perpetuação de preconceitos, porquanto se poderia retirar traços físicos não desejáveis e os mais pobres, devido ao alto custo, não teriam acesso. Nesse sentido, a capacidade de modelar as futuras gerações é um grave problema, porque ataca a natural diversidade humana e os indivíduos não modificados sofreriam estigma por não terem o “genótipo ideal”.

Outrossim, as novas descobertas técnicas perderam parte do seu objetivo de facilitar a vida da sociedade. Em consonância com Hans Jonas, a ciência contemporânea sofreu uma perda de sua humanidade, pois ela busca o seu próprio progresso sem que esse precise, necessariamente, estar vinculado ao avanço do bem-estar dos indivíduos. Paralelamente, segundo Mário Sérgio Cortella, uma atitude ética deve responder positivamente a três questões, “posso?”, “quero?” e “devo?”. Dessa forma, a biotecnologia tornou-se capaz de façanhas inacreditáveis, como o mapeamento do genoma humano, e há um desejo dos cientistas em inovar, entretanto, a terceira pergunta vem sendo negligenciada em prol não do aumento da qualidade de vida, mas da evolução apenas da própria técnica.

É mister, portanto, tomar medidas que promovam a maior participação da ética nas descobertas científicas e na sua implementação. Logo, cabe ao Poder Legislativo federal se antecipar e criar leis que restrinjam testes e modificações em genes humanos e proíbam qualquer tentativa de seleção de caracteres de embriões ou aprimoramento da espécie, por meio do estabelecimento de um diálogo do autor da proposta com profissionais de saúde e filósofos especializados no assunto. Ademais, tornar-se-á obrigatório o estudo da ética nos cursos relacionados à biotecnologia. Espera-se, assim, preparar  novos cientistas preocupados em promover um avanço técnico voltado para a melhora na qualidade de vida e respeitar a diversidade e direitos da vida humana.