Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 19/08/2020
Na novela “O Clone”, são retratadas as consequências que o primeiro clone humano, criado por um cientista brasileiro, trazem para diversas famílias. Infelizmente, essa situação não se restringe apenas à ficção. Na sociedade contemporânea, a postura de muitos cientistas é pautada na administração irresponsável da vida humana, cujos efeitos comprometem a integridade e prejudicam o desenvolvimento de seres. Dessa forma, nota-se a necessidade de medidas que possam sanar a questão.
Nesse âmbito, a falta de amparo direcionada à deontologia profissional evidencia a hegemonia de um corpo social moldado na leviandade, o que reforça condutas imprudentes. Consoante o sociólogo alemão Ralf Dahrendorf no livro “A lei e a ordem”, a anomia é uma condição na qual as normas reguladoras do comportamento da sociedade perderam sua validade. Sob essa ótica, fica nítido que a população é acometida pela desordem, uma vez que o sujeito dispensa princípios morais e se torna apático às práticas científicas abusivas sobre os seres vivos. Em verdade, é notório que assegurar a integridade entre os indivíduos da sociedade é um caminho inebriante para combater à erosão da ética e dignidade humana no ramo biotecnológico.
De outra parte, a socióloga Hannah Arendt, por meio da teoria da Banalidade do Mal, demonstra que a negligência a qualquer problema, como o persistente descaso com a conduta ética no campo biotecnológico, pode desencadear um caos. Em face disso, tal preceito assume contornos específicos na sociedade contemporânea, a qual há quem sustente e propague certo sentimento de indiferença com o uso indiscriminado de tecnologia em experimentos científicos, já que o próprio cientista banaliza as ações de caráter moral. Nesses termos, percebe-se a coerência de Hannah Arendt ao determinar a conduta indiferente do indivíduo, embora velada ou culposa, como o principal gerador das adversidades aos princípios vitais da comunidade.
É necessário, portanto, que os atores sociais trabalhem juntos frente à ampliação da ética na área da biotecnologia. Para tanto, Instituições de Pesquisa Científica e Tecnológica e a Escola devem viabilizar e fortalecer a difusão do senso crítico acerca daquela implicatura, pois desconstruir condutas impróprias nesses ambientes é preservar a dignidade humana e assegurar o bem-estar social. Além disso, tal empreitada intersocial será executada por intermédio de um ciclo de ações engajadas, a exemplo da formulação de normas regulamentadoras que visem a integridade em institutos tecnológicos e a criação de espaços para a discussão multidisciplinar de questões bioética em universidade e colégios, com o fito de incutir o sentimento de escrúpulo no trato social. Por fim, objetiva-se distanciar a realidade da trama “O Clone”.