Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 08/10/2020

No Brasil, em decorrência da falta de criticidade de muitos cidadãos, tornou-se corriqueira a compreensão de que a relação entre ética e biotecnologia não afeta a dinâmica atual. No entanto, embora essa perspectiva permaneça no senso comum, naturalizando esse modo de pensar, é preciso notar o quanto esse ponto de vista é ingênuo ao possibilitar que o indivíduo se isente da culpa e aponte culpados.

Avanços na medicina e nos agronegócios tentam justificar o uso desmedido dessas tecnologias. A falta de limites implica em inversões no curso natural das espécies. A ausência de conhecimento de futuros impactos dessas engenharias é uma das preocupações que o assunto traz. Esses entendimentos sobre moral e ciência, mesmo que simplistas, tendem a ressaltar fatores como a enorme utilização de animais para testes em pesquisas científicas. Em geral, quando a sociedade não se predispõe a assumir posturas críticas e sensatas, toda a atualização de valores fica propensa a exaltar padrões de conduta nocivos e desvirtuados que banalizam tal problema. Como se não bastasse, há de se atentar, também, à forma perniciosa como diversos segmentos sociais se comportam diante desse assunto, ao subestimar os casos de câncer em ratos, que triplicaram, segundo a revista Food and Chemical Toxicology. Assim, essa questão tem a capacidade de agredir o presente e violentar o futuro.

Por conta disso, no debate acerca do elo entre as normas morais e o desenvolvimento, é preciso enfatizar a urgência do investimento em um maior senso de corresponsabilidade coletiva. Dessarte, em consonância com as ideias da Teoria da Coesão Social, de Durkheim, e do poeta John Donne, não se deve perguntar por quem dobram os sinos, deve-se notar que dobram por todos. Desse modo, é possível evitar a proliferação de posturas meramente acusatórias que, além de desprezarem a atuação pouco eficaz ou inexistente de agentes públicos, também agenciam o aborto de sonhos e o assassinato de esperanças, ao passo que a população não se disponibiliza a pesquisar sobre assuntos e acusa organizações quando tragédias acontecem. Sob essa égide, mais do que se eximir da culpa para apontar culpados, os brasileiros devem atentar-se ao seu poder de ingerência e resolução.