Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 26/10/2020
O escritor Aldous Huxley, no seu livro “Admirável Mundo Novo”, mais de três décadas atrás, retratava uma sociedade distópica dividida em castas, onde a Biotecnologia ditava todas as regras, não só com nascimentos geneticamente manipulados, mas também no mundo do trabalho. Apenas os mais “geneticamente aptos” tinham oportunidades, o que levava o leitor a questionar até onde a Biotecnologia deveria avançar, sem que princípios morais e éticos fossem largados pelo caminho. Para além da ficção, o mundo atual convive com dilemas semelhantes, e conciliar a Biotecnologia e a Ética, dois campos aparentemente antagônicos, é hoje um dos maiores desafios da sociedade pós-moderna.
É notório que a tecnologia trouxe diversos avanços, sem os quais a qualidade de vida atual seria impensável. O computador nunca teria existido se não inventassem a eletricidade, e assim é a ciência: um avanço abrindo as portas para outros, e todos certamente suscitaram debates. O primeiro bebê de proveta veio ao mundo sob inúmeros questionamentos, e hoje já é uma prática banal. Muito se cogita sobre os alimentos transgênicos. Por outro lado, a Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio alertam que o mundo viverá uma escassez de alimentos dentro de menos de cinco décadas, e os alimentos transgênicos, indubitavelmente, seriam aliados de grande importância.
Outrossim, não se pode perder de vista a importância de se vigiar tantos “avanços”. A manipulação do material genético abre uma infinidade de possibilidades, que vão desde a prevenção de doenças hereditárias, até a seleção de características físicas do embrião. Da mesma forma, a clonagem e a tecnologia de células-tronco podem eliminar o problema da rejeição de tecidos. Mas até que ponto a ciência não estaria ultrapassando os limites da ética, passando a “brincar de Deus”? Portanto, é preciso que a sociedade e os órgãos competentes sigam vigilantes e ativos nesse debate, a fim de resguardar os valores sociais, possibilitando que a ciência avance sempre dentro dos limites morais e éticos.
Decerto, o limite entre os riscos e os benefícios da Biotecnologia muitas vezes pode ser bastante tênue. A Biotecnologia é a grande esperança na busca da cura de doenças complexas como o câncer e a fibrose cística. Mas também já se mostrou muito útil para a produção de armas biológicas. O Brasil tem conseguido notáveis avanços na área de Biotecnologia, principalmente com relação a alimentos transgênicos para o agronegócio. Então, é importante que o Ministério da Saúde e o Ministério da Agricultura exerçam o seu Poder de Polícia regulamentando essa produção, estabelecendo limites para essas tecnologias e garantindo que os riscos nunca sobreponham os benefícios. O Ministério da Ciência e Tecnologia precisa avançar em conjunto com esses órgãos, somando esforços para que a sociedade possa, de fato, desfrutar de todos esses avanços, mas sempre de forma ética e segura.