Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 10/11/2020

A série “Greys Anatomy”, disponível na plataforma de “streaming” da Netflix, aborda a vida de Meredith Grey, uma médica que, constantemente, encontra-se em situações em que sua ética no trabalho é posta em prova. Assim, Grey ultrapassa diversos limites profissionais, alterando pesquisas e burlando planos de saúde, por priorizar aquilo que ela achava ser justo. Fora da ficção, a complicada conciliação entre biotecnologia e ética traz a tona diversas questões, como a utilização da tecnologia para contribuir com a eugenia e a existência de um limite, ou da falta dele, dos avanços na genética.

A priori, a possibilidade da escolha e alteração dos genes, permitida pelo avanço tecnológico,  representa tanto um benefício para a sociedade como um malefício. A eugenia trata-se de uma teoria biológica de aprimoramento genético, em que os indivíduos seriam geneticamente “aperfeiçoados” e, com a fertilização in vitro, isso tem se tornado possível nos dias atuais. Assim, a fertilização pode modificar positivamente, extinguindo doenças hereditárias e sem cura, ou negativamente, servindo como forma de alterar características físicas, como cor dos olhos ou da pele. Dessa forma, de acordo com Debora Diniz, pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, o fantasma da eugenia não é dado pelas técnicas genéticas, mas, sim, pelo uso que será feito dela.

Além disso, outro aspecto a ser abordado é a limitação, ou a sua falta, na biotecnologia. O limite da biotecnologia seria a ética, pois é a partir dela que se pode discutir a respeito das implicações sociais dos avanços tecnológicos na medicina. Assim, a literatura “Frankstein”, da escritora britânica Mary Shelley, trata, despropositadamente, essa questão da bioética, pois permite uma reflexão sobre o quão longe a tecnologia pode ir quando se trata da vida, visto que, na história, um cientista, o Fransktein, após perder seu irmão, passa por uma depressão e decide “reviver” o falecido, utilizando de partes humanas de diferentes pessoas para realizar esse novo experimento, acabando por criar um “monstro”. Isso demonstra, portanto, como a ética auxiliria nessas questões, já que, no livro, o cientista ultrapassa princípios morais da ciência para efetuar um experimento baseado em motivações pessoais.

Logo, os desafios da conciliação entre a biotecnologia e a ética representam uma ameaça concreta, não somente aos indivíduos diretamente envolvidos, como a todos os cidadãos que, indiretamente, também figuram como vítimas de seu legado. Nesse sentido, o Poder Legislativo, com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, deve regulamentar a utilização da fertilização in vitro e outras tecnologias biogenéticas, principalmente utilizadas para fins eugênicos, por meio da criação de leis e protocolos éticos. Espera-se, com isso, que a ética seja efetivamente conciliada com o avanço tecnológico na medicina e que atitudes como as da personagem Grey sejam punidas e mitigadas.