Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 03/12/2020

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a subsequente criação das armas nucleares, no século XX, eclodiu a Guerra Fria, caracterizada por significativos avanços tecnológicos a partir de divergências ideológicas entre o liberalismo e o comunismo. Nesse contexto, destaca-se, a partir do surgimento da biotecnologia, o vínculo entre conflitos e o avanço da ciência, de modo a ocasionar um complexo embate ético acerca do avanço científico. Urgem, então, medidas que visem ao bem-comum.

Em princípio, conforme a doutrina positivista idealizada pelo filósofo Auguste Comte, salienta-se o progresso irrefreável da ciência como um coeficiente responsável pelas transformações socioeconômicas do século XIX. No entanto, tendo em vista que a sociedade francesa desse período histórico era majoritariamente desprovida de serviços sociais como educação e saúde, é perceptível o desacordo entre a expectativa científica e a realidade social. Isso, no mundo hodierno, é evidenciado principalmente no uso da biotecnologia para a produção agrícola de transgênicos, de forma a propiciar uma alimentação desequilibrada para a população e, consequentemente, favorecer algumas camadas sociais em detrimento das mais pobres. Assim, torna-se perceptível que modificações sociais advindas da biotecnologia podem, caso inseridas de maneira brusca e excludente, potencializar a desigualdade.

Ademais, o físico Carl Sagan, no livro ‘‘O mundo assombrado pelos demônios’’, ressalta que toda inovação científica origina - devido à existência de diferentes concepções sociais e à falta de responsabilidade ética de cientistas - ambiguidade moral. Nesse contexto, considerando o uso da biotecnologia em humanos para o benefício fisiológico, destaca-se que, embora se apresente como eficaz, o alto custo da manipulação dessa ferramenta a torna exclusiva de alguns indivíduos, originando um embate ético quanto aos limites da utilização desse privilégio no cotidiano. Além disso, enfatiza-se, também, o predomínio da moral cristã no mundo ocidental, fator que induz o comportamento social a crer na inviolabilidade do corpo humano, dificultando a inserção desse ramo da biologia na hodiernidade.

Os desafios que se impõem para a conciliação da biotecnologia com a ética se expressam, portanto, na dificuldade de democratizar essa ferramenta e os limites morais impostos pela ideologia religiosa. Dessa forma, para usufruir dos benefícios dessa tecnologia e evitar o aprofundamento da desigualdade social, no Brasil, é imprescindível a mobilização do Estado, a quem cabe a responsabilidade de, por meio do direcionamento de verba ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, viabilizar economicamente o uso da biotecnologia no cotidiano brasileiro. Outrossim, é necessária, por meio das ferramentas midiáticas, a conscientização popular quanto aos avanços científicos, de forma a propiciar uma assimilação gradativa desse processo e, consequentemente, garantir o bem-estar social de todos.