Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 08/01/2021
A Terceira Revolução Técnico-Científica, ocorrida após a década de 1960, teve como base inovações tecnológicas cujos impactos recaíram nos mais diversos setores sociais. No setor acadêmico, as ciências biológicas foram o alicerce da Biotecnologia, que atualmente entra em conflito com a Ética, sobretudo quando considerados o doping genético e os riscos ambientais oriundos de modificações laboratoriais, fatores que constituem desafios para a conciliação entre as duas áreas de estudo.
Nesse contexto, segundo a Agência Mundial de Antidoping, o uso não terapêutico de células ou elementos gênicos que têm potencial de aumentar o desempenho esportivo é considerado doping genético. A partir disso, artifícios criados pela Biotecnologia, como o incremento genético, são utilizados por comissões técnicas com o intuito de potencializar as características físicas dos competidores e favorecer as chances de vitória, o que fere o valor de respeito entre os oponentes, considerado um dos mais importantes valores esportivos. Dessa forma, a melhoria genética propiciada por avanços biotecnológicos tem implicações éticas no âmbito esportivo, uma vez que a competição se torna injusta frente às capacidades alteradas.
Ademais, de acordo com o filósofo Hans Jonas, as decisões voltadas ao estímulo do desenvolvimento devem seguir a ética da responsabilidade, que prega a preservação dos recursos disponíveis para as gerações futuras. Nessa perspectiva, as modificações laboratoriais em vegetais, por exemplo, com o objetivo de expandir cultivos e retardar fatores naturais, podem acarretar desequilíbrios ecológicos entre o organismo modificado e seu habitat, o que coloca em risco as relações ecológicas do ambiente e compromete a segurança ambiental futura. Dessa maneira, as alterações biológicas que fazem uso de aparatos biotecnológicos vão de encontro à ética responsável, já que as mudanças oferecem perigos ambientais graves.
Portanto, os avanços da Biotecnologia são desafios às éticas esportiva e ambiental. Para a reversão desse quadro, cabe ao Comitê Olímpico Internacional solicitar, a cada 6 meses, exames médicos das delegações vinculadas às competições olímpicas, por meio de suas sedes nos países membros e uso de laboratórios credenciados pelo Comitê, a fim de evitar que atletas adulterados comprometam os valores olímpicos. Além disso, compete ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento realizar campanhas que abordem as consequências da modificação gênica nos cultivos e, assim, possibilitar que as inovações advindas da Terceira Revolução Técnico-Científica possam também ser aproveitadas pelas gerações futuras.