Desafios para a inclusão digital da terceira idade
Enviada em 03/08/2020
Macabéa, personagem fictícia da autora Clarice Lispector, era excluída da sociedade pelo fato de amar as palavras, mas não saber o significado das mesmas. De forma análoga, na contemporaneidade, os idosos sofrem o preconceito e a exclusão, visto que amam as ferramentas digitais - a exemplos: celulares inteligentes e aplicativos atuais -, mas não sabem utilizá-las, consequentemente, tal parcela torna-se marginalizada, propícia ao esquecimento e ao sentimento de não pertencimento aos grupos nos quais estão inseridos. Dado o exposto, deve-se analisar não somente a exclusão causada pelo desenvolvimento financeiro, mas também o direito de acesso às ferramentas que lhes é negado.
Em primeiro plano, é preciso entender que o avanço monetário trouxe consequências negativas à terceira idade. Consoante a isso, o filósofo Karl Marx apresentou em uma de suas teses a teoria da reificação, ou seja, a transformação do ser humano em coisa potencialmente descartável. Dessarte, é indiscutível que o avanço do capitalismo tornou os indivíduos economicamente inativos desintegrados dos nichos tecnológicos, haja vista que foram reificados e intitulados de “inúteis” devido a não participação no cenário econômico hodierno, o que, além de confirmar o pensamento marxista, denuncia a sociedade preconceituosa que segrega aqueles que contribuíram para o mundo atual.
Ademais, é imprescindível examinar que o acesso às ferramentas digitais é essencial a todos. Para isso, a Organização das Nações Unidas publicou um documento no qual afirmava que a acessibilidade às tecnologias é, assim como a moradia e a alimentação, um direito fundamental que deve ser garantido a todos os cidadãos do mundo. É notório, no entanto, que, apesar de protocolado pela ONU, o acesso digital não abrange totalmente os indivíduos, a exemplos, os idosos, que, por conseguinte, são desintegrados do lugar e do contexto nos quais habitam e vivem. Dessa maneira, tornam-se alvos fáceis de notícias falsas e de manipulação pelos demais usuários.
É mister, portanto, que projetos sejam criados para que a inclusão digital da terceira idade deixe de ser um desafio para o país. Destarte, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com o Estatuto do Idoso, a criação de cursos gratuitos de informática e utilização de ferramentas digitais, por meio de capitais públicos e privados, além de capacitar profissionais que atuarão com tal população, para que haja a integração dos idosos na sociedade - o que contrariará a máxima marxista - e também o aguçamento do senso crítico de tal grupo, visando a não manipulação dos mesmos. Assim, o Brasil distanciar-se-á dos entraves enfrentados por Macabéa e aproximar-se-á do desenvolvimento, pleno, mútuo e da inclusão digital.