Desafios para a inclusão digital da terceira idade
Enviada em 05/10/2020
No filme “O Estagiário”, da plataforma de streaming Netflix, é retratada a história de um senhor de 70 anos que, cansado da monotonia da vida, procura emprego em uma renomada empresa de marketing. Ao conseguir o trabalho, ele encontra diversos obstáculos para se adequar às novas tecnologias, todavia, com o apoio da equipe, o homem consegue a adaptação necessária. No entanto, fora da ficção, observa-se que tal prerrogativa está longe de ser alcançada, afinal, muitos são os desafios enfrentados para a inclusão digital da terceira idade, cuja problemática se intensifica pela falta de investimento, por parte do poder público, nesse setor, bem como pelos tabus sociais relacionadas a essa temática.
Em primeiro plano, é válido salientar que, segundo o filósofo Tomas Hobbes, em sua obra “O Leviatã”, o Estado é a instituição responsável por garantir a harmonia e a fluidez entre as relações humanas. Contudo, tal assertiva não é colocada em prática, haja vista que, a falta de investimento estatal em setores que amenizem esse problema, como, por exemplo, cursos que promovam a inclusão tecnológica dos idosos, são insuficientes. Dessa forma, tal realidade vai contra o que preconiza o Estado Democrático de Direito, uma vez que, nesse contexto, a garantia do bem-estar e exercício da cidadania, por essa camada, encontra-se fragilizada.
Ainda nesse viés, um outro desafio que condiciona a permanência dessa questão são os tabus construídos socialmente acerca dessa temática, afinal, conforme exposto pelo livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka, o princípio da sociedade capitalista restringe os valores dos seres humanos aos bens que ele produz e às aparências. Diante disso, o pensamento do bom enquanto útil se adequa perfeitamente a esse contexto, já que, o aparente “ritmo obsoleto” estigmatizado pela população em relação à terceira idade gera, muitas vezes, a impaciência de ensinamento das novas formas de interação e, por conseguinte, na privação de conhecimentos tecnológicos.
Em suma, diante dos conflitos abordados, cabe ao Estado, como mantenedor da ordem, progresso, leis e bem-estar civilizatório, investir na criação de projetos que, além de desenvolver cursos gratuitos de inclusão digital para essa parcela, alertem sobre os preconceitos enraizados socialmente acerca das capacidades de aprendizagem dos idosos e os potenciais riscos que esse pensamento pode gerar. Tal medida poderia ser realizada por meio da alocação de recursos do Ministério da Economia, bem como pelo apoio de entidades governamentais, com o intuito de incluir tecnologicamente esse público e assegurar a democratização do exercício da cidadania. Com isso, pode-se almejar um contexto semelhante daquele demonstrado pela obra cinematográfica “O Estagiário”.