Desafios para a inclusão digital da terceira idade

Enviada em 16/10/2020

O longa “O Homem que Caiu na Terra”, estrelado por David Bowie em 1976, narra a odisseia de um extraterrestre que enfrenta, principalmente, a solidão e a estranheza - chagas que afligem todos que presenciam o inédito - ao povoar um planeta diferente. De forma análoga à ficção, tais pontos nevrálgicos afetam, hoje, idosos alheios aos mecanismos tecnocráticos e erigem desafios para a inclusão digital da terceira idade. É urgente, pois, que essa questão seja pauta nas Agendas Nacionais do globo, uma vez que é conspícua a importância dessa para consolidar o bem-estar na velhice.

Nessa ótica, há que discorrer acerca da gênese dos obstáculos para garantir a inserção do grupo nas Tecnologias da Informação. Assim, é notório que a imersão assimétrica dessas gerações - a exemplo da “Baby Boomer”, nascida entre 1940 e 1960 - inviabilizou o acesso àqueles que não dispunham de tempo para assimilar as rápidas mudanças alavancadas, dada as jornadas excessivas de trabalho. Acresce-se, também, que a instantaneidade dos novos algoritmos pode conferir descrédito às relações por meio deles estabelecidas, tal qual afirmou o escritor Ariano Suassuna, em uma apresentação, acerca do telefone: ao propiciar um diálogo sonoro desvinculado da imagem dos emissores, o aparelho lhe evocava desconfiança e aversão. Com isso, a terceira idade encontra-se, em sua maioria, inacessível a novas experiências de vida e apartada das dinâmicas sociais.

Em outro prisma, é vital compreender que os empecilhos supracitados implicam repercussões transversais para idosos. Desse modo, é oportuno compreender que a exclusão cibernética instaura um isolamento forçado dessas pessoas, as quais encontram-se retidas em seus próprios perímetros e limitadas pela impossibilidade de explorar o novo e aprofundar as leituras de mundo por intermédio do espaço virtual. Em decorrência dessa execrável realidade, o processo senil é interpretado como uma constante desconstrução da identidade, passível de patologias como a depressão e, em suas versões mais nefastas, suicídios - realidade corroborada pela Organização Mundial da Saúde, a qual aponta os idosos como o grupo de maior risco para a violência autoinfligida. Logo, frente a essa ameaça à qualidade de vida, é imprescindível que lideranças globais canalizem esforços para abordá-la.

Depreende-se que os desafios para a inclusão digital da terceira idade colocam em xeque a saúde dessa parcela. Por isso, é crucial que os Governos Federais priorizem a criação de políticas de integração, via parcerias com universidades e Organizações não Governamentais, a fim de estabelecer projetos de extensão capazes de elencar voluntários afinados às tecnologias, para ministrarem cursos sobre essas, em salas de informática desses espaços e em casas de repouso. Procedendo-se assim, sentimentos como os interpretados por Bowie não mais ceifarão a paz de espírito da vida sênior.