Desafios para a inclusão digital da terceira idade
Enviada em 20/12/2020
No livro O Velho e o Mar, Ernest Hemingway conta a história de Santiago, um senhor que almeja pescar um grande peixe em alto-mar, porém é escarnecido pelos colegas de profissão devido sua velhice. Fora da ficção, os idosos também são depreciados, de modo que ainda são apartados do mundo digital. Nesse contexto, é perceptível que o desinteresse político e social colaboram na perpetuação dessa conjuntura.
Primeiramente, vale destacar que a displicência estatal contribui com esse cenário. De acordo com o Estatuto do Idoso, o Poder Público deve criar oportunidades de acesso da terceira idade às técnicas de comunicação, computação e demais avanços tecnológicos, mas na prática tal pressuposto não é devidamente efetivado pelos governantes, haja vista uma pesquisa realizada pelo Sesc São Paulo, a qual indica que apenas 19% dos idosos fazem uso efetivo da rede. Nessa lógica, é indubitável que as esferas governamentais são negligentes com a integração digital dos sêniores e, por conseguinte, violam uma norma legal, enquanto promove situação de subcidadania de diversos indivíduos.
Ademais, o descaso da sociedade apresenta íntima relação com a falta de domínio virtual dos mais velhos. Sob essa ótica, a filósofa Simone de Beauvoir , em sua obra “A Velhice: Realidade Incômoda”, diz que o problema do envelhecimento está no fato do homem não enxergar em seu futuro essa condição. Posto isto, é imprescidível que as pessoas percebam aqueles com idade avançada como seus semelhantes e reconheçam a inivetabilidade de incluí-los nas novas tecnologias, pois, conforme o sociólogo Pierre Bourdieu, o indivíduo só enriquece sua existência com a convivência plena de elementos presentes na sociedade.
Depreende-se, portanto, que é responsabilidade do corpo social e político resguardar os direitos da população envelhecida. Logo, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as escolas, elaborar um programa de inserção do idoso no universo tecnológico, por meio de aulas gratuitas, com a finalidade de descontruir o estereótipo de uma etapa da vida marcada pela decadência e, principalmente, assegurar sua cidadania. Tal projeto pode ser realizado com a participação de voluntários e profissionais da informática. Sendo assim, paulatinamente, os idosos terão suas existências aprimoradas, como propõe Bourdieu.