Desafios para a inclusão digital da terceira idade
Enviada em 19/10/2021
O geógrafo brasileiro Milton Santos debateu, durante sua vida, o conceito da Cidadania Mutilada, na qual afirma que a democracia, para ser efetivada, precisa atingir todos os indivíduos de um país. Observa-se, na realidade nacional, o desmantelamento do regime de poder emanado do povo, evidenciado, por exemplo, pela separação e ausência da população idosa em toda a sociedade mas sobretudo no meio digital, seja por uma invisibilização do indivíduo quando este atinge a terceira idade, seja por sua consequente exclusão social.
Em seu livro “A Velhice”, Simone de Beauvoir, uma filósofa existencialista, propõe que especialmente na terceira idade, o valor do homem é imposto pelo meio a qual ele pertence, ou seja, num cenário capitalista, como o brasileiro, onde a importância do indivíduo está baseada numa ideia de constante produtividade, o idoso é fabricado como impotente. Nesse ambiente, com o abandono e alheamento condicionados às pessoas nessa faixa etária, a sua ausência no meio digital é sintoma da invisibilização do indivíduo, pois é impossível incluir nas tecnologias da informação e comunicação - os Tics - estes que tem suas cidadanias mutiladas na sociedade que falha em ser democrática.
Ademais, a Constituição Federal, pelo Estatuto do Idoso, assegura a esse grupo um conjunto de direitos - e os deveres da sociedade e Estado de fazê-los possíveis - que tratam de oportunidades ao seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social. Entretanto, é óbvia a percepção que na realidade brasileira a terceira idade não conhece a efetivação da lei e da democracia, pois, amputados do corpo social, as pessoas nesta faixa etária não tem os meios de adquirir as tecnologias; não tem acesso ao conhecimento; não tem o Estado e a sociedade como agentes capacitantes e inclusivos. Em concordância com essa ideia, pesquisas do Digital 2019 denunciam que esse grupo constitui 2% de todo o público brasileiro que acessa as rede sociais, reafirmando, estatisticamente, que a exclusão dos idosos na sociedade é um obstáculo na sua inclusão digital na era moderna.
Portanto, para a inclusão dos idosos nessas tecnologias no Brasil, é dever do Estado investir em seu desenvolvimento, por meio da criação dos cursos educacionais e profissionalizantes já previstos pelo Estatuto do Idoso, com conteúdo relativos às técnicas da comunicação, computação e demais avanços tecnológicos, com o fim de integrar essa faixa etária à vida moderna. Além disso, o poder público oferecerá, a toda a sociedade brasileira, palestras acerca da importância da integração cidadã do indivíduo idoso no convívio comunitário, afim de corrigir a sua invisibilização e mutilação e reconhecer o seu valor social. Espera-se, com o seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social, a concretização da democracia e a sua presença no mundo digital.