Desafios para a inclusão do idoso no ensino superior
Enviada em 25/10/2020
Antes da Revolução Industrial, as mudanças tecnológicas levavam séculos para consolidarem-se. Os idosos daquela época, respeitados por sua sabedoria, ensinavam lições e ofícios aos jovens. No meio técnico atual, por outro lado, a constante evolução científica e social torna descartável parte da experiência de vida, que é suplantada pela educação formal. O acesso a essa, no entanto, não é pleno: das 8,2 milhões de matrículas vigentes no ensino superior em 2017, menos de 8 mil foram efetuadas por pessoas com 65 anos ou mais. Essa exclusão é causada pelo fracasso das faculdades em atender simultaneamente aos desejos das diferentes faixas etárias e pela estagnação da cultura brasileira, na qual o sênior universitário é considerado anômalo.
Em primeiro lugar, os cursos de graduação nem sempre atendem às expectativas dos idosos. Isso porque aqueles possuem, em geral, caráter profissionalizante condizente com os anseios dos adolescentes que tradicionalmente os frequentam. Por outro lado, muitos idosos estão aposentados e buscam a educação superior objetivando realizar-se pessoalmente por meio da obtenção de instrução e da certificação correspondente. Essa disparidade entre as necessidades dos dois grupos desfavorece o idoso, dissuadindo-o de dar prosseguimento à sua formação.
Além disso, a cultura brasileira colabora para tal exclusão: há ideias preconcebidas sobre quais atividades devem ser praticadas pelos representantes de cada faixa etária. Aos novos, estudo; aos velhos, trabalho ou descanso. Essa tradição é reforçada pelas mídias que a população consome: nas novelas, os mais antigos não são retratados como quem busca conhecimento, tampouco como universitários; nos comerciais de crédito estudantil, os bancos tentam aproximar-se dos adolescentes, jamais dos anciãos. Como consequência, os próprios idosos duvidam da viabilidade de graduar-se.
Portanto, para que os seniores participem efetivamente da educação superior, é fundamental que adéquem-se as grades curriculares dos cursos e que mudem-se as prenoções sobre as atribuições desses indivíduos. A fim de realizar a primeira medida, é necessário que o Ministério da Educação permita que os requisitos para a conclusão das faculdades sejam flexibilizados para esses cidadãos. Assim, eles poderão escolher as disciplinas que lhes interessem, sem compromisso com as exigências do mercado de trabalho, efetivando sua busca pelo saber. Para realizar a segunda, é imprescindível que as pessoas com idade avançada sejam apresentadas como discentes pelos produtores de novelas e anunciantes televisivos. Isso reformularia a consciência coletiva, de modo a aumentar a aceitação desses indivíduos, tanto por si mesmos quanto por terceiros, nas universidades. Essas medidas permitirão que os brasileiros mais experientes recuperem o respeito do qual outrora gozavam.