Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 12/10/2020
Na série televisiva “Anne with an E”, disponível na plataforma Netflix, a protagonista Anne descobre no mundo da leitura a possibilidade de aprender novas palavras e de exercitar o poder de sua imaginação, enfrentando as dificuldades da vida com a ajuda dos livros. Entretanto, as descobertas e os estímulos à aprendizagem, propiciadas pelo hábito da leitura, não são vivenciadas por muitos brasileiros, que pouco leem em comparação com as populações de países desenvolvidos. Assim, em uma análise atenta, tem-se que os obstáculos para criar um país de leitores envolve a inacessibilidade aos livros, e a falta de interesse governamental em mudar esse panorama.
Em primeiro lugar, é importante destacar que, embora os livros não tenham valores altos, eles ainda estão culturalmente distantes do cotidiano de muitas famílias. Nesse sentido, compreende-se que a compra de um livro não será prioridade em um orçamento familiar restrito, e a consequência imediata dessa inacessibilidade é a carência da prática de leitura, principalmente pelas classes sociais desfavorecidas. Essa dinâmica é reforçada pelo habitus, conceito do teórico Pierre Bourdieu, que significa as disposições socialmente adquiridas pelo grupo social a qual se está associado. Dessa maneira, o trabalhador assalariado por vezes assimila que o mundo dos livros não o pertence.
Em segundo plano, é inconteste que o hábito de ler, além de desenvolver o pensamento e a imaginação dos leitores, desperta a criticidade e o poder de reflexão sobre a realidade, virtudes que nem sempre interessam aos governantes. Dessa forma, embora a Constituição de 1988 garanta o direito à educação, pilar para o aproveitamento da prática da leitura, a falta de investimentos nessa área tem como resultado uma população de analfabetos funcionais, e por conseguinte, um país com poucos leitores. Nessa perspectiva, a realidade brasileira se aproxima da narrativa de Umberto Eco na obra “O Nome da Rosa”, que demonstra como o acesso ao conhecimento por meio dos livros era restrito na Idade Medieval.
Portanto, é urgente que os obstáculo para o cultivo do hábito da leitura no país sejam combatidos. Isso será possível a partir dos esforços conjuntos dos entes federados (União, Estado e Município) para mudar o panorama atual, a partir de políticas que incentivem a leitura desde a primeira infância, por meio de projetos coordenados nas escolas públicas para doação e troca de livros entre os alunos. Ademais, o sistema de ensino deve ser reformulado, com supervisão do Ministério da Educação, a fim de garantir que os alunos alfabetizados tenham plena capacidade de interpretar textos e possam, portanto, praticar a leitura. Assim será possível que mais brasileiros sejam como Anne, e descubram os livros como fonte de conhecimento e refúgio para a imaginação.