Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 13/10/2020
Conforme Aristóteles, os indivíduos devem buscar, em vida, a “plenitude do ser”, um estado no qual se tem total compreensão de si, e essa só poderia ser alcançada por meio da cultura. Contudo, hoje, a plenitude aristotélica é posta em risco, visto que a leitura, principal via ativa à cultura e ao saber, perdeu espaço dentre os hábitos brasileiros. Destarte, aponta-se a introdução de dispositivos digitais ao cotidiano dos cidadãos como a principal causa da problemática, o que incita uma sociedade cada vez mais manipulados.
Primeiramente, é notório que a Revolução Digital foi o pontapé do problema. Isso porque, assim como ilustrado no episódio “Queda Livre”, da série “Black Mirror”, os indivíduos ancoraram-se em celulares e computadores tanto para a realização de tarefas quanto para absorver informação e cultura. Conquanto soar prático e benéfico, tal hábito segregou a leitura, uma atividade cognitiva ativa, em vantagem de conteúdos passivos, ou seja, que não exigem do receptor quaisquer esforços mentais. Logo, é nítido que a presença de aparelhos eletrônicos no cotidiano brasileiro ofusca a prática da leitura e é um desafio a se contrariar.
Por conseguinte, enquanto tal conjuntura perdurar, a sociedade como um todo se enfraquece politicamente. Para depreender melhor, cabe citar o livro “Nostalgia del Soberano” do espanhol Manoel Arias Maldonado. Nele, o cientista político exprime uma tendência social irracional: a aclamação por líderes totalitários à procura de ordem. Sob essa perspectiva, em uma realidade pouco recheada por livros - conteúdos que estimulam a “plenitude do ser” -, os cidadãos tornam-se menos eruditos e podem ficar à deriva de demagogos.
Portanto, visto a intempestividade da falta da leitura no Brasil, compreende-se a necessidade de intervenção. Para tanta, compete às famílias o dever de, por meio da disciplina do ambiente familiar, atenuar, senão inviabilizar, o acesso aos produtos da Revolução Industrial de 1970 das crianças, a fim de possibilitar uma geração de indivíduos voltados à prática da leitura. Ademais, com isso, a sociedade que se formará será mais consciente de suas urgências e dissonar-se-á do proposto por Maldonado, alcançando a “plenitude do ser” de Aristóteles com mais facilidade.