Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 14/10/2020

Ray Bradbury, nas páginas de “Fahrenheit 451”, desvela uma sociedade fictícia em que os livros são proibidos e queimados por supostamente tornarem as pessoas infelizes. Contemporaneamente, a  falta de amor à literatura refletida pelo autor norte-americano ecoa com precisão no crescente desinteresse por esse âmbito no Brasil, materializado na profunda crise das livrarias brasileiras. Com efeito, a consolidação nacional da prática da leitura apresenta inúmeros desafios, como a resolução de questões governamentais e educacionais.

Em primeira análise, a ineficiência estatal mostra-se um entrave para o fortalecimento da cultura literária no país, haja vista o fisiologismo das agendas do Poder Público. A gênese dessa percepção encontra-se na histórica priorização de ambições subjetivas das elites pelo Estado, o qual, ao secundarizar demandas populares, inviabilizou o adequado envio de verbas para políticas de incentivo à leitura, como campanhas midiáticas e a distribuição de livros para comunidades carentes. Nesse sentido, a obra “Bases do Autoritarismo Brasileiro”, de Simon Schwartzman, correlaciona-se à conjuntura de negligência administrativa, pois afirma que os interesses normativos dos governantes existem para satisfazer as requisições dos grupos de poder, e não para suprir as necessidades do corpo social.Dessa forma,o descaso do governo fundamenta o panorama de rejeição à leitura na nação.

Em segundo plano, cabe refletir a precarização do ensino como importante empecilho para a efetiva valorização da leitura no território. Isso porque a desmotivação dos alunos é refletida no insatisfatório sistema de aprendizado vigente, o qual, para além de priorizar disciplinas voltadas ao meio lógico-racional em vez da Literatura, possui péssima infraestrutura, com a frequente falta de livros paradidáticos que de fato incentivem o gosto pela leitura nos jovens. Nesse contexto, o cenário de inconsistência educacional materializa antagonicamente o conceito de “Escola Asa”, de Rubem Alves, segundo o qual  a educação deveria promover a transformação social do estudante. Desse modo, a violação da prerrogativa do educador impede o aprimoramento estudantil pelo enaltecimento literário.

Portanto, a perspectiva brasileira de desvalorização da leitura é consubstanciada por fatores estatais e pedagógicos. À vista disso, o Poder Executivo Federal, sob forma do Ministério da Educação, deve investir substancialmente em políticas públicas de estímulo a essa prática nas escolas, por meio da realização recorrente de dinâmicas de grupo e debates acerca das principais obras literárias nacionais, com o uso de sites e aplicativos com informações sobre tais composições para melhor contextualização, a fim de construir o amor pela leitura no imaginário estudantil. Destarte, a realidade brasileira se distanciará cada vez mais do quadro desolador retratado em “Fahrenheit 451”.