Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 14/10/2020

Sob a ótica do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, a violência é sempre uma derrota, seja qual for a maneira como ela se manifesta. Com efeito, percebe-se que a prática escassa de leitura no Brasil remete à premissa de Sartre, uma vez que representa uma violência à educação. Nesse contexto, faz-se urgente avaliar a falta de estímulo por parte da sociedade e a relação do hábito de leitura com a proliferação das “fake news”. Nessa perspectiva, é lícito postular o papel crucial da família e da escola no que tange à imersão de crianças e jovens no meio literário.

De fato, as instituições familiar e escolar representam os primeiros núcleos sociais e, por isso, a tendência dos indivíduos é reproduzir práticas e comportamentos desse grupo. Infelizmente, o censo realizado pelo Instituto Pró-Livro indica que a média anual de obras lidas por pessoa é de 4.96, sendo que apenas metade dos livros são lidos até o final. Sendo assim, pode-se afirmar que o número de não-leitores tende a continuar baixo, visto que não há incentivo dos núcleos sociais primários.

Por conseguinte, deve-se avaliar a importância da literatura para a formação do senso crítico. Certamente, a historiografia comprova que, durante as Reformas Protestantes, Martinho Lutero propôs a tradução da bíblia, de modo que a população possuísse acesso direto ao livro sagrado e, assim, desenvolvesse certa autonomia em relação à doutrina católica. De forma análoga, sabe-se que leitores possuem superior capacidade de reflexão e interpretação, além de um raciocínio lógico mais desenvolvido em relação aos não-leitores e, por isso, estão menos suscetíveis a crer em informações falsas - como as “fake news” - visto que tendem a averiguar a veracidade das informações apresentadas. Desse modo, percebe-se a importância da prática de leitura para a emancipação intelectual do indivíduo.

É imprescindível, portanto, buscar soluções para esse impasse. Para tanto, compete à Escola promover debates - mediante à presença de alunos e responsáveis - em que sejam discutidos os benefícios do hábito de leitura desde a tenra idade. Essa ação deve ser feita por meio da contratação de psicólogos e professores de literatura, por exemplo, com o objetivo de estimular a prática de leitura no núcleo escolar e familiar e, dessa forma, evitar que os cidadãos se sujeitem à desinformação que circula, principalmente, nos meios digitais. Assim sendo, a violência citada por Sartre contra a educação será erradicada do Brasil.