Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 14/10/2020

O romance distópico do inglês Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo”, narra a humanidade dominada pelo Estado Mundial, o qual tornou alguns livros clássicos proibidos, com o pressuposto de que comprometiam a estabilidade social. Analogamente, é relevante equiparar a obra de Huxley ao Brasil contemporâneo, uma vez que, apesar do progresso propiciado pela prática de leitura, ainda se verificam obstáculos para sua maximização. Logo, a passividade social e a fragilidade ao acesso compactuam para esse contexto deletério.

A princípio, ao averiguar o quadro supracitado, depreende-se que a passividade social corrobora a inibição da leitura. Nesse âmbito, o célebre filósofo alemão Friedrich Nietzsche expõe o conceito de super-homem, em que o homem, para ser livre plenamente, precisa abandonar a condição de prisioneiro e ser dono de si mesmo. Com base nisso, é fundamental destacar que a sociedade hodierna se priva de tal liberdade, dado que parte vincula a postura negligente em relação ao hábito de decodificar, o qual desperta tal criticidade autônoma. Consequentemente, acabam por incorporar a ideia nociva de que ler é monótono, de modo a culminar a criação de indivíduos ausentes de pensamentos críticos e vulneráveis socialmente.

Ademais, é de suma relevância evidenciar a fragilidade do acesso à leitura como propulsora da condição aludida. Nessa perspectiva, conforme o levantamento Retratos da Leitura, realizado pelo Instituto Pró-Livro em 2018, 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Dessa forma, é essencial pontuar que essa estimativa comprova a precariedade de programas e debates direcionados ao estímulo e à aquisição de obras entre os cidadãos, que passam a tratar tal hábito como obsoleto, subjugando-o aos meios eletrônicos. Assim, fomenta efeitos prejudiciais como a marginalização na inserção do mercado de trabalho, posto que a falta da prática de interpretação dificulta uma comunicação eficiente.

Portanto, diante do exposto, intervenções capazes de atenuar os desafios ao incentivo para prática de leitura no Brasil são indispensáveis. À vista disso, as escolas devem realizar projetos que abordem a interpretação fora do senso de imposição, através de apresentações lúdicas que exibam a diversidade das tipologias textuais e a relevância de entender a realidade criticamente, a fim de gerar uma relação inicial favorável entre jovens e livros. Outrossim, o Estado necessita ampliar os recursos que elaborem campanhas de leitura didaticamente, por meio da criação de um “passe-leitura” gratuito em bibliotecas virtuais e presenciais que gerem um acesso efetivo, com efeito de distanciar o Brasil da realidade proposta por Aldous Huxley.