Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 16/10/2020

O romance distópico Frenheith 451, de Ray Bradbury, relata uma sociedade avessa aos livros e afeita ao entretenimento. Entretanto, ainda que descreva um estado centralizador, o cerceamento de obras escritas foi feito deliberadamente pela população ao rejeitarem toda forma de desconforto causado pelo ponto de vista oposto, obrigando o Governo a queimar literaturas que ofendessem as pautas das minorias. O atual contexto brasileiro, contudo, revela situação semelhante quanto ao desinteresse pela leitura, valendo dissertar sobre os principais desafios para a sua prática

Em primeiro lugar, é válido analisar a formação educacional deficitária do brasileiro. Observando por esse espectro, a linguagem acompanha a historicidade humana desde os seus primórdios e perpassa por todas as suas relações. Todavia, o sistema educacional do Brasil deixa margem ao ensino decorativo a partir da valorização das disciplinas exatas em detrimento das linguagens e humanas, valorizando a aprendizagem mecânica e não interpretativa, tal como foi evidenciado no Projeto Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA) com o Brasil no nível 2 em leitura. Assim, há a alienação do estudante, tal como nas esteiras de montagem fordistas.

Em segundo lugar, é oportuno a análise da formação cultural brasileira. Sobre esse espectro, o preterimento da leitura tem marcas na sociedade inculta do Brasil no século XVI, durante a colonização, prevalecendo o desrespeito à multiplicidade. Nessa lógica, a falta de participação cidadã na história nacional culminou no desinteresse em entender o seu contexto através da busca individual de conhecimento, via leitura. Isso se evidencia hodiernamente na queda do comércio de livros nas grandes bibliotecas do Brasil, como a Saraiva, que vem passando por grave crise após a redução das vendas. Dessa maneira, o déficit na capacidade leitora implica o agravamento do analfabetismo funcional e, portanto, torna o homem alheio à sua realidade e suscetível à manipulação.

Dito isso, medidas são necessárias para a solução do impasse. Para tanto, é justo que o Governo crie projeto de produção literária nas escolas públicas, com a elaboração de textos, resenhas e artigos pelos alunos, baseando-se em obras consagradas da literatura nacional, com o propósito de incentivar o pensamento críticos desde as idades mais tenras. Ademais, é preciso que o Estado crie campanhas publicitárias com a divulgação de propagandas nas redes sociais sobre a importância da leitura e os meios mais eficazes para iniciá-la, promovendo o seu hábito em grande parte da população. Destarte, não seremos a sociedade que queima livros, mas a que retira o seu potencial para a melhoria da convivência em meios distintos.