Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 24/10/2020

Em “a gente não sabemos escolher presidente”, a banda “Ultraje a rigor” critica o brasileiro desinformado e omisso com os acontecimentos do país e debocha: “A gente somos inútil”. Nessa perspectiva, o Instituto Pró-Livro divulgou, em 2019, que 44% dos brasileiros não leem, levando ao empobrecimento da educação e a um aumento de leitores analfabetos. Diante disso, não há como o cidadão despertar seu senso crítico. Nesse contexto, deve-se analisar como a falta de hábitos e de políticas eficazes, motivadas pela sociedade e pelo Estado, influenciam na problemática em questão.

Com efeito, a falta de hábitos de leitura é um dos principais responsáveis pela desinformação e formação de leitores analfabetos. Isso acontece porque, na pós-modernidade, com a velocidade de informações compartilhadas, principalmente, nas redes sociais, as pessoas não têm interesse em se aprofundar nos assuntos, ou seja, leem, mas não interpretam, contribuindo, inclusive, para a disseminação de notícias falsas. Dados do Ministério da Educação, por exemplo, indicam que um dos maiores erros dos candidatos no Enem está na dificuldade de leitura e interpretação de textos. Como consequência, o cidadão que não lê vive em estado vegetativo, porque entrega a terceiros o poder de escolha, de decisão e de participação nos atos da democracia, renunciando a um direito que é seu.

Outrossim, atrelado à ausência de práticas de leitura, a falta de políticas eficazes também impede o acesso aos livros no país. Isso acontece em virtude de, hodiernamente, não haver programas públicos que incentivem o hábito de ler livros nas três etapas da educação básica, tampouco escolas aparelhadas com bibliotecas. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), por exemplo, informam que 55% das escolas não têm bibliotecas, impedindo o acesso dos alunos aos livros e sua transformação por meio destes. Logo, parafraseando Monteiro Lobato, quem não lê, não ouve, não fala e não vê. Como consequência, o déficit de leitura prejudica a educação e o aprendizado, causando alienação e um subdesenvolvimento social por toda a vida do indivíduo.

Urge, portanto, que práticas e políticas eficazes de leitura devem ser revistos no Brasil. Para tanto, o Governo Federal, junto às escolas e editoras, deve implementar bibliotecas com espaço físico adequado e pessoal capacitado, além de distribuir acervo literário físico e digital nas escolas que ainda não dispõem deste espaço, promovendo o acesso constante e permanente à obras de qualidade. Por outro lado, o Ministério da Educação deve introduzir disciplinas que incentivem o hábito de ler livros na base curricular das três etapas da educação básica, de forma a garantir o desenvolvimento intelectual do aluno desde os primeiros anos escolares. Desta forma, com essas medidas, práticas de leitura e políticas eficazes de estímulo estarão garantidas no país e deixarão de ser uma grande problemática.