Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 27/10/2020

Na obra cinematográfica “Sociedade dos Poetas Mortos”, o professor John Keating introduziu a arte da poesia aos alunos, incentivando a construção de um clube secreto de leitura de poemas. Tal atitude, no entanto, desagradou os pais do corpo estudantil, que desprezavam quaisquer aspirações artísticas de seus filhos devido receio que estes buscassem carreiras nesse ramo pouco rentável. Não obstante da ficção, faltam mais figuras como John Keating para resolver os desafios existentes da prática da leitura no Brasil, que, igualmente à dramaturgia, resultam de um contexto cultural pouco encorajador. Logo, ao analisar a problemática por um prisma cultural, nota-se forte influência da falta de apoio familiar e do Estado para sua permanência.

Em primeira análise, é evidente que a ausência de incentivo familiar para a prática da leitura, fomenta os entraves que configuram esse cenário. De acordo com o sociólogo Talcott Parsons, a família é uma máquina que produz personalidades humanas. Por essa ótica, a falta do hábito de leitura apresenta-se como um pensamento passado de geração em geração, o que dificulta seu extermínio por forças externas, já que o problema encontra-se dentro da casa dos brasileiros e estende-se por uma longa linha de tempo.

Em segunda análise, há a questão da inatividade governamental, uma vez que poucos possuem acesso à literatura, tornando-se imperativo que haja uma democratização dos livros para que a cidadania seja respeitada. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, a taxa de investimento no Brasil, somando setores públicos e privados, está no seu menor nível dos últimos cinquenta anos. Entretanto, para agir sobre problemas coletivos, como o acesso das classes marginalizadas aos livros, é preciso investimento massivo. Como há lacuna financeira no que tange à leitura, que ainda é elitizada, a erradicação de tais desafios tornou-se complicada.

Portanto, a transformação desse quadro se dá de forma clara e inequívoca: O Ministério da Educação deve mostrar a importância da leitura aos pais dos estudantes, por meio de oficinas de letras, trazendo renomados escritores brasileiros para uma mesa-redonda, a fim de que as figuras parentais interajam com autores e percebam o quão fundamental são os livros em suas vidas. Desse modo, a mudança de mentalidade iniciará nos lares, tornando-se mais fácil a criação de uma nova cultura literária. Além disso, é necessário que a prática seja democratizada, por meio de uma parceria público-privada entre o MEC e livrarias, trazendo livros para as bibliotecas escolares e alugando-os para os alunos por um preço simbólico, para que as livrarias recebam apoio financeiro e a classe desprivilegiada tenha acesso ao novo hábito. Somente assim, o desprezo pela arte será apenas em “Sociedade dos Poetas Mortos”. Mortos."