Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 30/10/2020

“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade não sente essa sede.” A célebre frase de Carlos Drummond de Andrade torna-se adequada à conjuntura contemporânea, visto que, apesar de ser uma ferramenta que proporciona inúmeros benefícios, o hábito da leitura enfrenta desafios quanto à sua concretização no Brasil, seja pelos altos preços dos livros, seja pela falta de estímulo do sistema educacional em relação a esse exercício.

Em primeira análise, pode-se afirmar que os exorbitantes valores cobrados em obras literárias corroboram para que essas fiquem restritas a uma elite financeira. Segundo o escritor contemporâneo Sérgio Vaz, “a literatura é uma dama triste que atravessa a rua sem olhar para os pedintes, famintos por conhecimento.” Tal crítica condiz com o momento atual, uma vez que, de acordo com levantamento feito pelo Instituto Pró-Livro, o novo projeto de lei que pretende aumentar os impostos sobre os livros no território nacional prejudicará cerca de 27 milhões de consumidores das classes C, D e E - esses que já são excluídos por vulnerabilidade social, terão ainda mais dificuldade em fazer parte da população leitora. Assim, evidencia-se que o sistema capitalista excludente, inviabiliza o desfrute da prática literária por grande parte da sociedade.

Ademais, cabe ressaltar o descaso governamental em relação ao campo educacional como agravante do problema. É sabido que o sistema de ensino vigente no País não estimula o hábito da leitura nos estudantes, haja vista que essa ação é encarada como algo mecânico e obrigatório no ambiente escolar, o que afasta o aluno, gerando reflexos na vida adulta, como afirma o jornalista Daniel Amaro. De acordo com dados da pesquisa “Retratos da Leitura”, os livros vêm sendo substituídos pelas redes sociais no Brasil, o qual perdeu 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019. Dessa maneira, compreendendo-se a leitura como um agente transformador e essencial na construção do senso crítico, a falta de investimento em novas formas didáticas que a incentivem, compromete gravemente a plena instrução da população.

Portanto, conclui-se que o exercício da leitura ainda enfrenta entraves no Brasil. Dessarte, é papel do Estado, por meio de investimentos, realizar a construção de bibliotecas, sobretudo em áreas carentes, que disponham de clássicos literários e best-sellers atuais, a fim de propiciar a prática literária em parcelas populacionais desfavorecidas economicamente. Além disso, cabe ao MEC, por meio da criação de projetos educacionais, desenvolver novas formas de estímulo à leitura nas escolas, como a criação de “clubes do livro” e atividades dinâmicas que envolvam a literatura, por exemplo, a fim de estimular essa atividade e torná-la frequente desde cedo na vida dos estudantes.