Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 30/10/2020

Em “Capitães de Areia”, romance de Jorge Amado, o personagem infantil, cujo pseudônimo é Professor, é um assíduo leitor que, porém, adquire livros por meio dos furtos realizados pelo seu grupo de amigos. Em contrapartida, a realidade do Brasil pode se deparar com alguns empecilhos quando se trata da prática de leitura. A taxação de livros, por exemplo, é uma recente mudança que trouxe consigo repercussões significativas, tais como a intensificação das desigualdades sociais em decorrência da maior dificuldade financeira em adquirir esses livros. Assim, mostra-se necessário analisar esse cenário e, a partir disso, promover possível soluções para esses impasses.

Em primeira análise, sobre a taxação de livros, com sua proposta de reforma tributária realizada em julho de 2020 pelo ministro da Economia Paulo Guedes, com uma taxa prevista de 12%, ou seja, tornaria o valor das obras ainda mais inviável para o consumidor. “Tal elevação dos preços impacta o mercado editorial como um todo. A taxação pode inviabilizar as atividades de livrarias e distribuidoras”, diz Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro, ao G1. Então, o livro não deveria ser pensado como um privilégio de uma minoria mais rica: se ele é indispensável para uma classe privilegiada, também deve ser para a população mais pobre. Ou seja, a tributação de livros parece não encontrar argumentos bons o suficiente pela via econômica, e muito menos pela social.

Ademais, sabe-se que essa cobrança aumentaria a desigualdade do acesso ao conhecimento e à cultura. A Câmara Brasileira do Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livro publicaram um manifesto com posicionamento contrário. “As instituições ligadas ao livro sabem da necessidade da reforma tributária no Brasil, mas não será com a elevação do preço dos livros que se resolverá a questão”, afirma o artigo. Também apontado por Theodore Schultz, premiado com o Nobel de Economia, que o caminho para um país se tornar desenvolvido e rico se baseia em investir na educação como elemento central. Segundo ele, mesmo que esse feito tenha um custo, quanto mais se investe na capacitação das pessoas, mais produtiva e rica uma nação será”.

Depreende-se, portanto, que a prática da leitura no Brasil está em risco. Assim, compete às mídias de amplo alcance incentivarem ao discurso de manifesto por uma reforma tributária justa e acessível a todos por meio de campanhas de caráter reivindicador a fim de tornar possível o maior alcance de leitores. Além disso, cabe ao Governo Federal tomar medidas que incluam a classe baixa, como livros de venda gratuita, livrarias em área periféricas e doação de livros paradidáticos em escolas. Dessa forma, viabilizar o maior acesso a livros e fomentar o interesse por leitura na população, bem como se identifica o Professor, assíduo leitor e personagem de Capitães de Areia.