Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 09/11/2020

Na obra “Orgulho e Preconceito”, a autora Jane Austen retrata o fascínio da personagem Elizabeth Bennet pelos livros. Dois séculos após seu lançamento, muita coisa mudou: ao contrário da jovem Bennet, que se dedicava horas à literatura, a sociedade hodierna assiste à diminuição dessa prática, o que gera preocupação em diversos locais, como no Brasil. Nesse sentido, o enfrentamento de tal situação perpassa pela análise dos desafios que dificultam o hábito de leitura no país, expressos na concepção da elitização do público e na escassez de investimentos.

A princípio, observa-se que a baixa adesão ao universo literário é reflexo da persistência da noção de que ler é uma atividade para os mais abastados. Quanto a isso, a autora Carolina Maria de Jesus relata, em sua autobiografia “Quarto de Despejo”, como o seu apreço pelos livros a fez ser julgada pelos outros moradores da Comunidade do Canindé, que acreditavam que tal hábito deveria ser restrito aos ricos. Dessa forma, ao aderir a essa suposta “elitização natural” da leitura, muitos brasileiros acabam por perpetuar a nociva autodepreciação contada pela escritora. Forma-se, assim, uma massa de sujeitos que — ao contrário de Elizabeth Bennet — não usufruem dos benefícios das obras escritas, uma vez que permanecem presos às próprias crenças limitantes.

Outrossim, a escassez de investimentos públicos destinados à construção de espaços para a leitura contribui para a problemática. Segundo a Constituição Federal de 1988, o acesso a ferramentas educacionais, inclusive aos livros, é um direito assegurado pelo Estado. A realidade, no entanto, demonstra que isso nem sempre acontece: Conforme dados do Ministério da Cultura, o Brasil possui  apenas duas bibliotecas para cada 60 mil habitantes. Nota-se, então, que a prática não acompanha, efetivamente, o que prevê a legislação. Desse modo, o Governo perde a oportunidade de incentivar a formação leitora de seus cidadãos.

Depreende-se, portanto, que os desafios para a adesão aos livros devem ser enfrentados. Por isso, com o intuito de propagar a leitura como atividade para todos, o Ministério da Cidadania deve ampliar o alcance das campanhas que incentivem tal noção. Isso pode ser realizado por meio da veiculação de propagandas na televisão e “internet”, que contenham depoimentos de indivíduos de classes menos abastadas e que conseguiram superar obstáculos através da literatura. Além disso, cabe ao Ministério da Educação ampliar os investimentos na democratização do acesso às obras escritas. Tal medida deve ser executada mediante a inauguração de bibliotecas públicas nos locais mais necessitados, em parceria com os órgãos estaduais. Espera-se, assim, que os textos literários possam continuar sendo fonte de fascínio tal como outrora.