Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 21/11/2020

A neurocientista Maryanne Wolf afirma que a capacidade leitora é baseada em um circuito neural que deve ser exercitado para que o indivíduo desenvolva não só a criticidade, mas também a empatia ao considerar pontos de vista diferentes do seu nas leituras. Todavia, mesmo com a evidente importância de estimular a prática da leitura, verifica-se que o Brasil não combate eficientemente os desafios ligados à formação de leitores no país. Tal contexto provém do pouco estímulo que o sistema de ensino e as famílias dão aos jovens, além da negligência estatal em relação ao setor livreiro.

Primeiramente, destaca-se que a educação básica e as famílias não estimulam a leitura desde a tenra idade, dificultando a sua prática na vida adulta. A esse respeito, James Heckman, economista autor de estudos sobre alfabetização, afirma que a formação sólida de bons leitores ocorre pelo esforço conjunto dos familiares e professores. Entretanto, segundo dados do Instituto Pró-Livro, cerca de 44% da população brasileira não lê, e 30% dos professores também não leem. Dessa maneira, infere-se, logicamente, que as crianças tendem a não serem estimuladas a ler por seus pais e nem mesmo pelos seus docentes, fato que retarda o aprimoramento do circuito cerebral citado. Assim, forma-se uma grande quantidade de jovens que terão dificuldades para adquirirem o hábito futuramente.

Ademais, é importante ressaltar que o Estado tem demonstrado uma inadmissível negligência com as pequenas empresas do setor livreiro. Conforme uma pesquisa da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo (CNC), cerca de 29% das livrarias fecharam entre 2007 e 2017. Além disso, observa-se que a maioria das falências foram de microempresas, as quais encontram-se sem amparo estatal para sobreviverem e competirem com as grandes lojas. Essa realidade é evidenciada com o recente projeto legislativo que visa a taxação dos livros. Desse modo, o governo dificulta ainda mais a abertura e sobrevivência dos pequenos comércios de materiais escritos, limita o acesso à leitura e perpetua a problemática no país.

Portanto, urge que o Ministério da Educação atue estimulando a leitura no ensino básico. Essa ação deve ser realizada por meio da instituição de campanhas de leitura nas escolas públicas, sendo que esses eventos devem incluir gincanas e atividades de leitura aos domingos, dias nos quais professores voluntários e os pais dos jovens poderão comparecer. Como efeito direto dessa medida, as crianças serão estimuladas a verem a leitura como algo lúdico e validado por seus responsáveis, o que facilitará a sua adesão a esse hábito. Em adição, o Superministério da Economia deverá apoiar as pequenas livrarias mediante a suspensão dos impostos sobre os seus produtos e o fornecimento de incentivos fiscais para que elas se desenvolvam com maior fluidez.