Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 23/11/2020
Segundo o sociólogo Paulo Freire, “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Sob essa ótica, é inegável o valor da leitura para a promoção do senso crítico e da intelectualidade do homem moderno. No entanto, ao se observar o caráter excludente do acesso aos livros no Brasil, nota-se que essa importância não é considerada. Dessa maneira, pode-se afirmar que o comportamento estatal e a cultura de aceitação por parte dos brasileiros faz com que esse hábito não seja adotado por todos de maneira plena.
A priori, deve-se destacar que a displicência governamental contribui com esse cenário. De acordo com o Artigo 6 da Constituição Federal, promulgada em 1988, todo cidadão brasileiro tem direito à educação. Entretanto, ao se analisar a proposta do Ministério da Economia de aumento na tributação sobre os livros e, em efeito, a alta no preços ao consumidor que, segundo o Senado Federal, pode chegar a 20%, é indiscutível que a premissa constitucional encontra-se ofuscada, já que, ao invés de estimular a formação educacional por meio do hábito de ler, o Estado faz com que a aquisição desses produtos seja cada vez mais cara e elitizada. Dessa forma, é crucial salientar que a má atuação das autoridades torna tal prática uma atividade desigual e distante da realidade da população que não possui condições financeiras e, por consequência, dificulta a intelectualidade desses brasileiros.
Outrossim, a aceitação dessas determinações políticas provém de um ensino ineficaz e muitas vezes inexistentes que acarreta na falta de incentivo à leitura e no desconhecimento dos direitos sociais. No livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, o protagonista Fabiano, sem acesso ao conhecimento, acaba sendo explorado por aqueles que detinham o saber. Nesse viés, sendo a arte uma mera imitação da realidade, hoje são milhares de fabianos no Brasil, uma vez que, a falta de programas pedagógicos que provoque o interesse por livros desde a infância, etapa de formação de valores, enfraquece o senso crítico e dificulta que essas pessoas lutem pela cidadania. Logo, a ampliação do acesso à educação por meio da leitura é urgente para alertar os brasileiros sobre a condição de marginalização social.
Diante do exposto, evidencia-se que o comportamento político e individual são determinantes para o enfraquecimento da prática literária no Brasil. Para reverter esse cenário, é preciso que o Poder Legislativo impeça a reforma tributária sobre os livros, mediante a votação no senado e na câmara de deputados, a fim de evitar a elitização e o acesso desigual a esses produtos. Ademais, urge que o Ministério da Educação destine verbas para ampliação de bibliotecas e ambientes de leitura infantil por meio da inclusão de seu objetivo na base de Diretrizes Orçamentárias, no intuito de estimular esse hábito. Feito isso, a sociedade brasileira se tornará mais crítica e apta a lutar pelos seus direitos.