Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 24/11/2020

Para Ariano Suassuna, “não existe hábito de leitura”; isso porque, segundo o importante escritor brasileiro, “hábito” é o que se faz sem pensar, como caminhar e acender as luzes, ao passo em que a leitura promove o pensamento e depende dele. Essa prática, assim, é fundamental para o desenvolvimento individual e comunitário, mas se vê reiteradamente rejeitada no Brasil contemporâneo. Uma das causas dessa rejeição é a competição injusta pela atenção dos jovens no meio digital, que pode - e deve - ser equiparada pelo poder público.

A necessidade desse tipo de intervenção advém dos ganhos proporcionados pela leitura frequente. Além de, por meio do contato com estilos variados, aprofundar e consolidar diversos mecanismos linguísticos no leitor, a leitura de livros desenvolve a capacidade - importante na atualidade, quando se observa grande difusão de fake news - de pensar criticamente. Isso ocorre, pois o contato prolongado com um dado autor possibilita a percepção de seu projeto de texto por parte do leitor; alguém que lê um tuíte sobre uma “cigana oblíqua e dissimulada” não põe à prova a imparcialidade do narrador, como faz o leitor de “Dom Casmurro” com o narrador Bentinho.

No entanto, mesmo sendo conhecida essa importância, a leitura se vê obstaculada pela competição com o entretenimento digital. Ao passo em que o Programa Internacional de Avaliação de Alunos aloca metade dos jovens brasileiros abaixo do nível básico em leitura, a mesma instituição mostra que o país ocupa o segundo lugar em tempo diário de internet. Isso ocorre uma vez que há, nas redes, muitos fatores que propositalmente desviam a atenção dos alunos para lucrar, como plataformas particulares de filmes e redes sociais, que veiculam anúncios publicitários

.       Desse modo, é importante a atuação do poder público no fomento à leitura. Nesse sentido, cabe ao Ministério da Educação impor, via outorga de decreto público, mudanças nos mecanismos de busca na internet (como Google): quando um usuário pesquisar um termo, os primeiros três resultados devem ser arquivos com ao menos 20 páginas. Isso contribuirá com o desenvolvimento da prática de ler extensamente, de modo a criar uma sociedade mais crítica e afastar o uso da internet do “caminhar e acender luzes”, aproximando-o do “pensar”.