Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 30/11/2020

No livro 1984 de George Rowell, é retratado um mundo distópico em que um Estado totalitário controla e altera toda forma de registro histórico-literário e contemporâneo, a fim de moldar a opinião pública favor do governo ditadorial. Nesse sentido, a narrativa apresenta as inúmeras medidas governamentais de censura e segregação intelectual, como a confiscação de livros e punições severas para leitores, a fim de demonstrar que a leitura é de suma importância para a destruição do regime e o engrandecimento intelectual do povo. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Orwell pode ser relacionada ao contexto literário brasileiro, haja vista à excessiva mercantilização das obras literárias, bem como o deficitário estímulo à leitura.

Em primeira análise, é fundamental compreender a ausência de incentivo à leitura vivenciada no país. Durante o Renascimento Cultural - movimento artístico e intelectual da Idade Moderna - a cultura era valorizada e usada como uma maneira de transmitir conhecimentos. Hodiernamente, entretanto, a situação é pouco observada no contexto nacional, uma vez que o hábito de ler encontra-se pouco ampliado. Esse panorama ignóbil ocorre pelo fato de que as instituições escolares interessam-se, geralmente, apenas pela transmissão de conteúdos técnicos, negligenciando as incitações às habilidades de leitura. Evidencia-se, portanto, que o deficitário incentivo torna-se uma entrave aos direitos sociais.

Faz-se mister - ainda - salientar a mercantilização excessiva dos livros como impulsionadora e agravante da problemática. De acordo com o sociólogo alemão Karl Marx, o consumo tornou-se um ato de adoração, atribuído a um valor simbólico e transcendente ao que o produtor determina, em que a comercialização e a obtenção de lucro sobrepõem a utilidade original da mercadoria. Nesse viés, a capitalização exacerbada segrega inúmeros grupos sociais, nos quais grande parte dessa população é desprovida de amplos recursos financeiros para comprar tais obras literárias. Diante do exposto, constata-se que esse estorvo assemelha-se ao contexto governamental de Orwell em 1984.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Desse modo, urge que o Ministério da Educação, por intermédio de cursos especializados socioeducativos, instrua os educadores e equipes pedagógicas a importância da valorização do hábito de leitura, a fim de estimular o pensamento crítico e o desenvolvimento social. Ademais, cabe também ao Ministério da Economia, regular por meio de fiscalizações, o preço das obras literárias, com o intuito de denunciar os preços abusivos e democratizar a comercialização para grupos minoritários. A partir dessas ações, tornar-se-á possível a construção de uma sociedade contraposta ao regime de 1984 e a máxima Marxniana.