Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 16/12/2020

Na obra ‘‘Brasil: uma biografia’’, as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling apontam ao leitor as idiossincrasias da sociedade brasileira. Dentre elas, destaca-se ‘‘a difícil e tortuosa construção da cidadania’’. Embora o país possua uma das legislações mais avançadas do mundo, muito do que nela se prevê não se concretiza. Tal fato é evidenciado no âmbito do acesso à educação e, consequentemente, às estruturas sociais que fomentam o setor educacional como, por exemplo, o acesso aos livros. Portanto, tendo em vista que apesar deste direito constitucional ser concernente aos brasileiros, a ineficiência do Estado associado a uma cultura de aceitação por parte dos brasileiros, faz com que a cidadania não seja gozada por todos de maneira plena.

Precipuamente, Du Bois, um ativista político, implica as falhas na perspectiva de um progresso humano ao abordar a carência de educação que, de acordo com o Ministério de Educação e Cultura (MEC), alveja 44% da população, ao hábito literário que fomenta a consciência do senso crítico. Em outras palavras, a escassez de investimentos no setor educacional mascara e tolera o pensamento fundamentalmente colonial em que a educação é utilizada como ferramente segregadora, banalizando a falta de acesso aos livros no Brasil que, segundo o manifesto da Federação Brasileira de Bibliotecários, não possui bibliotecas em número suficiente.

Ademais, a aceitação da restrição e ineficiência de um sistema público de educação capaz de circundar as diversas esferas sociais provém de um ensino ineficaz e, em copiosas ocorrências, inexistente, que acarreta a falta de conhecimento sobre os direitos individuais. O autor Jorge Amado em sua obra ‘‘Capitães de areia’’, faculta voz a um grupo de garotos que vivenciam o descaso social e são explorados pela falta do conhecimento dos seus direitos sociais como, por exemplo, a educação e saúde. Nesse viés, a arte age como uma trivial reprodução da realidade, hoje são milhares de capitães de areia sobreviventes no Brasil. Dessa forma, a ampliação da reprodução dos direitos sociais é imperativa para alertar os brasileiros sobre sua condição de segregação coletiva e para inserí-los no protagonismo de suas próprias histórias.

Portanto, é necessário que o Estado tome providências para melhorar o quadro atual. Para a conscientização da sociedade brasileira, urge que o MEC crie, por meio de verbas governamentais, campanhas publicitárias que detalhem a importância da leitura como propulsora do senso crítico. Sob essa finalidade, o MPF, por meio de ações judiciais avaliadas com prioridade pelo Poder Judiciário, deve assegurar as condições educacionais, incentivando a democratização do acesso à leitura e fortalecendo as bibliotecas brasileiras com uso de políticas públicas que promovem a estima pela razão.