Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 17/12/2020
Uma das histórias retratadas no romance “O Cortiço”, do escritor brasileiro Aluísio de Azevedo, é a de Pombinha, uma jovem que apreciava a leitura e lia para analfabetos do local onde morava. No entanto, fora da ficção, a realidade do Brasil contemporâneo é outra, uma vez que são inúmeros os desafios para a prática da leitura na pátria-canarinho. Isso ocorre, sobretudo, pela ausência de literacia familiar e de incentivo dos educadores, bem como pela apatia do Estado.
Convém ressaltar, a princípio, como principal motivo dessa problemática a indiferença dos pais e professores em incentivar os infantes a leitura. A esse respeito, o conceito de literacia familiar é compreendido como um conjunto de práticas e experiências relacionadas com a linguagem, a leitura e a escrita vivenciadas entre pais/cuidadores e filhos. Entretanto, a grande maioria dos responsáveis adultos, negligencia essas experiências aos filhos, seja pela própria falta de interesse à leitura, seja pela pela correria da vida contemporânea, deixando, dessa forma, essa responsabilidade aos docentes, que muitas vezes também se mostram incapazes nesse aspecto, por igualmente não possuírem o hábito de ler, como ratificam os dados de do Instituto Pró-Livro - de que 30% dos professores brasileiros não se declaram leitores. Desse modo, formam-se novos adultos indiferentes à leitura.
Ademais, outro fator agrava esse cenário: a posição apática do poder público. Nesse viés, o filósofo contratualista John Locke desenvolveu o conceito de “Contrato Social”, segundo o qual os cidadãos cedem sua confiança ao Estado, que, em contrapartida, deveria oferecer direitos a todos. Todavia, a ideia de Locke está distante de ser realidade, haja vista que o acesso a livros é destinado a quem detém poder econômico, devido ao custo para obtê-los, e são poucas e insuficientes as iniciativas do poder público a disponibilizar esse acesso a todos. Assim, enquanto a apatia estatal for a regra, a prática da leitura será a excessão.
Fica evidente, portanto, a necessidade de medidas para mitigar essa celeuma. Para que isso ocorra, as escolas, em parceria com o Ministério da Educação, devem incentivar a leitura, por meio de oficinas do livro com os alunos e os responsáveis, que haja troca de livros usados e palestras - direcionadas aos pais - que abordem a importância da literacia familiar, a fim de que as crianças desenvolvam o gosto pela leitura desde a mais tenra idade. O Estado, por sua vez, deve promover a distribuição de obras literárias nas escolas e universidades públicas, isso deverá ser feito através de emendas parlamentares que direcionem recursos para esse fim, com o fito de que todos tenham pleno acesso a leitura. Somente assim, a sociedade terá jovens e adultos que apreciam a prática da leitura, como Pombinha.