Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 17/12/2020
No livro “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, é retratado um mundo distópico e totalitário, em que o letramento e a apreciação de obras literárias foram banidas por ameaçar o establishment vigente. Nesse sentido, a narrativa elucida a importância da prática de leitura na formação intelectual e crítica da sociedade, visto que o seu desenvolvimento fortalece a individualidade do cidadão e o conhecimento de seus próprios direitos legais. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Ray pode ser relacionada ao contexto literário hodierno, haja vista a existência de desafios como a mercantilização das obras e o deficitário à leitura. Nessa perspectiva, esses desafios devem ser superados de imediato para que uma sociedade letrada seja alcançada.
Em primeira análise, é fundamental compreender a ausência de incentivo à leitura vivenciada no país. Durante o Renascimento Cultural - movimento artístico e intelectual da Idade Moderna - a cultura era valorizada e usada para a transmissão de conhecimentos. Hodiernamente, entretanto, a situação é pouco observada no contexto nacional, uma vez que o hábito de ler encontra-se pouco ampliado. Esse panorama ignóbil ocorre pelo fato de que as instituições escolares interessam-se, geralmente, apenas pela transmissão de conteúdos técnicos, em que negligencia-se as incitações às habilidades de leitura. Evidencia-se, portanto, que o deficitário incentivo torna-se um entrave aos direitos sociais.
Ademais, faz-se salientar a mercantilização excessiva dos livros como impulsionadora e agravante da problemática. De acordo com o sociólogo alemão Karl Marx, o consumo tornou-se um ato de adoração, atribuído a um valor simbólico e transcendente ao que o produtor determina, em que a comerciailização e a obtenção de lucro sobrepõem a utilidade original da mercadoria. Nesse viés, a capitalização exacerbada torna o hábito da leitura um fator desigual na sociedade, visto que segrega inúmeros grupos sociais, nos quais grande parte são desprovidos de amplos recursos financeiros para comprar as obras literárias, além de desenvolver o conhecimento advindo destas. Diante do exposto, constata-se que esse estorvo assemelha-se ao contexto governamental de “Fahrenheint 451”.
É necessário, portanto, que medidas sejam tomadas para amenizar o quadro atual. Posto isso, urge que o Ministério da Educação, por intermédio de cursos especializados socioeducativos, instrua os educadores e equipes pedagógicas a importância da valorização do hábito de leitura, a fim de estimular o pensamento crítico e o desenvolvimento social. Outrossim, cabe também ao Ministério da Economia, por meio de fiscalizações, regular o preço das obras literárias, com intuito de denunciar os preços abusivos e democratizar a comercialização do saber para grupos minoritários. A partir dessas ações, poder-se-á possível a construção de uma sociedade contraposta ao regime de Ray Bradbury.