Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 22/12/2020
A obra “O futuro da democracia”, do jurista italiano Norberto Bobbio, relata os contrastes entre a democracia utópica registrada no papel e a democracia real, o que evidencia o descaso das autoridades com o cumprimento da lei. Desse modo, infere-se que a realidade abordada no livro é a firme representação da negligência estatal com o desenvolvimento educacional, haja vista que a leitura se tornou um hábito incomum na rotina estudantil. Posto isso, destaca-se que a eficiência na prática da leitura deve ser resultado do trabalho em conjunto do Estado e da populção brasileira.
A princípio, é fulcral pontuar que não há como promover o contato com os livros em uma sociedade marcada pela desigualdade social. A esse respeito, no século XVI, durante o período da Colônia de Ex-
ploração, apenas a aristocracia - organização composta por nobres- tinha acesso à alfabetização e à leitura de qualidade. Ocorre que, no Brasil contemporâneo, a população pobre ainda é excluída da possibilidade de ler, seja pela escassez de recursos das instituições de ensino público, seja pela falta de incentivo dos projetos pedagógicos, o que confronta a elitização da leitura iniciada no século XVI. Dessarte, não é coerente que a ineficácia da educação brasileira estimule a perda da prática literária.
De outra parte, é válido salientar que a alienação familiar dificulta a constância do hábito da leitura. Sob essa ótica, o escritor realista Eça de Queirós, em seu livro “O primo Basílio”, critica a instituição familiar moderna ao revelar suas crises e destacar a perda da sua função social. Nesse contexto, os lares brasileiros exemplificam a falência denunciada por Eça, uma vez que é inviável ser leitor em um ambiente marcado pela agressão à mulher, pela falta de afeto e pela ausência parental. Esse cenário além de prejudicar a leitura, potencializa a entrada juvenil na marginalidade e no tráfico de substâncias ilícitas. Sendo assim, enquanto os lares forem desestruturados, as crianças serão incapazes de perceber a importância de uma das práticas mais relevantes para a humanidade: a leitura.
Portanto, é fundamental a tomada de medidas atenuantes ao entrave abordado. Nesse sentido, as prefeituras, em parceria com as escolas de nível fundamental, devem buscar romper a banalização histórica no que concerne à leitura, por meio da realização de projetos pedagógicos, como “workshophs” e gincanas criativas que receberiam o nome de “Aprendi no livro”. Tal iniciativa dos municípios teria a finalidade de mostrar aos pais a essencialidade de manter um ambiente saudável, que possibilite, com êxito, o contato com os livros. Por conseguinte, os cidadãos poderão reconhecer o papel transformador da leitura na sociedade e torná-la constante em todo o âmbito nacional.