Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 30/12/2020
A Constituição federal de 1988 afirma, em seu artigo sexto, que a educação e o lazer são direitos de todo cidadão. Ademais, categoriza como dever do Estado propiciar o acesso à cultura. Contudo, essas previsões constitucionais não condizem com a realidade, uma vez que o hábito da leitura, forma de usufruto desses direitos, não é praticado por grande parcela da população. Diante desse cenário, torna-se essencial o debate sobre como o ritmo acelerado da sociedade moderna e a ausência de estruturas adequadas contribuem para essa situação.
Em primeira análise, deve-se destacar que a dinâmica imposta pela sociedade moderna impede a criação do hábito de leitura. Isso ocorre porque, conforme o sociólogo Byung-Chul Han, o século XXI é pautado na “sociedade do desempenho”, na qual os indivíduos são estimulados a produzir constantemente. Nesse estado, o qual ele chama de “hiperatenção”, as pessoas são tomadas pela fragmentariedade e pela superficialidade das informações, de forma a não conseguirem experimentar um aprofundamento reflexivo. Nesse contexto, a capacidade de praticar uma leitura contemplativa vai em sentindo oposto ao ritmo acelerado imposto pela sociedade contemporânea.
Em segunda análise, é fulcrar assinalar que a ausência de estruturas adequadas, como bibliotecas e salas de estudos, contribui para o baixo índice de leitores no país. Nesse sentido, a pesquisa Retrato da Leitura no Brasil aponta o acesso aos livros como condição primordial para a promoção da prática da leitura. Porém, ela também afirma que apenas 36% dos estabelecimentos escolares possuem essas instalações, responsáveis pela aproximação gratuita de alunos aos textos e às obras culturais. Dessa maneira, a falta de bibliotecas impede o fácil acesso aos livros e, por conseguinte, não estimula nas crianças e nos jovens a criação de um hábito de leitura.
Portanto, é mister que atitudes sejam tomadas para ampliar a prática da leitura no Brasil. Para isso, o Estado, na condição de garantidor dos direitos individuais, deve, por meio de debates e de verbas governamentais, construir bibliotecas públicas de qualidade. Ademais, essas precisam ser locais convidativos e conter acervo variado e atualizado, contemplando diferentes gêneros literários e públicos de distintas faixas etárias. Por fim, é fundamental a veiculação de campanhas publicitárias, com o intuito de divulgar benefícios do hábito da leitura no cotidiano da sociedade moderna. Dessa forma, será possível a construção de país permeado pela efetivação dos elementos exposto na Carta Cidadã.