Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 11/01/2021
É sabido que, a prática da leitura pela população tem sido tema discussão constante nas últimas décadas, uma vez que, o hábito literário brasileiro é tido como abaixo da média em pesquisas como a “Retratos da Leitura”. Contudo, é necessário entender as ramificações socioeconômicas que permitem que tal realidade exista, e se mantenha. Logo, se faz necessária a análise da percepção do livro pelo Estado e a sociedade, como também da acessibilidade financeira do livro.
Em primeiro lugar, a explicitação da ideia de fetichismo de mercado apresentada por Karl Marx, é indispensável para o pleno entendimento da conjuntura discutida. Posto que, Marx entende o fetichismo como a sobreposição do lucro sobre o valor social do objeto, é possível inferir que, tal pensamento se aplica à situação da leitura no Brasil, no momento em que se entende o livro como principal meio para a prática literária. Portanto, as ameaças de aumento da tributação sobre o livro implicam o processo de construção de sua posição enquanto artigo de luxo, e, consequentemente, dificultam que o corpo social se beneficie da leitura.
Em segundo lugar, é imprescindível, que a realidade socioeconômica do contigente populacional brasileiro e a acessibilidade do livro, ou a espaços de leitura, sejam analisadas e comparadas. Visto que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade dos brasileiros vivia com menos de quinhentos reais por mês em 2019, e, sabendo que, o preço médio de um livro no Brasil, segundo a Câmara Brasileira do Livro, é dezenove reais, fica clara a impossibilidade da manutenção do hábito contínuo de leitura, o que se solidifica com outra estatística do IBGE, que informa que cada uma biblioteca atende trinte e quatro mil habitantes. Assim sendo, a negligência do Estado para com os hábitos benéficos à sociedade é perceptível, em função do distanciamento entre população e literatura, e a má distribuição de bibliotecas públicas.
Tendo em mente o que foi discutido, conclui-se que a ameaça de aumento da tributação de livros, aliada a escassez de centro de leitura públicos, revela a negligência estatal para com o bem-estar intelectual público. Sendo assim, a fim de intervir na questão em prol da facilitação e disseminação do hábito de leitura da população brasileira, é vital que ocorra o encaminhamento de um projeto de lei por parte do Ministério da Educação à Câmara dos Deputados, que garanta a mínima tributação de artigos literários, assim como o resguardo do acesso a bibliotecas como direito do cidadão brasileiro, de modo a preservar o hábito de leitura do corpo social brasileiro, independentemente do poder de consumo individual.