Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 13/01/2021

De acordo com os iluministas Diderot e D’Alambert, autores da “Enciclopédia”, a educação é crucial no combate à alienação dos cidadãos e à efetivação da liberdade. Todavia, embora se perceba tal importância para o corpo social, no Brasil essa ferramenta se mostra insuficiente, sobretudo no que se refere à prática da leitura. Dessa forma, a pluralidade de entretenimento atual, associado à falta de estímulo escolar são os principais responsáveis por impedir esse hábito.

E primeiro plano, urge analisar como a aceleração da rotina coletiva contribui para esse desinteresse. Acerca disso, a leitura de livros e jornais, compostos por dezenas ou centenas de páginas, requer tempo e paciência. No entanto, diante de uma lógica pós-moderna considerada pelo filósofo Zygmunt Bauman, na qual a fluidez das relações despertam uma agilidade comportamental, percebe-se que formas de entretenimento e informação como algo rápido e prático representam uma solução para a rotina atribulada das pessoas. Nesse cenário, embora as novas plataformas digitais de filmes e séries sejam uma das alternativas para essa demanda social, também são capazes de substituir o interesse pela leitura. Desse modo, pode-se associar a perda de 4,6 milhões de leitores nos últimos quatro anos - segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil - à pluralidade de ferramentas tecnológicas.

Em segundo plano, as dificuldades em implementar tal prática se deve à negligência institucional. Nesse sentido, se já falta infraestrutura básica no sistema de ensino público do país (como bibliotecas), que dirá a disposição de livros, pois, de acordo com o Sistema de Avaliação da Educação Básica, esses materiais são insuficientes em 60% das escolas brasileiras. O mais preocupante, porém, é que embora haja algum suporte mínimo, a abordagem solidificada da literatura clássica - com linguagem difícil e pouco contextualizada - não desperta o prazer pela leitura. Logo, se para o sociólogo Pierre Bourdieu essa instituição constitua o primeiro “habitus”, responsável pela criação de personalidades, nota-se que o desestímulo à formação de valores literários indica um mal exercício de tal atribuição.

Destarte, ao perceber os obstáculos que impedem esse hábito no Brasil, percebe-se a urgência em medidas que possam reconfigurar tal quadro. Para isso, é fundamental que o Ministério da Cultura associe as novas tecnologias à essa prática, oferecendo subsídio às empresas cinematográficas nacionais, para que adaptem obras literárias à filmes e, assim, desperte o desejo de conhecer as obras. Ademais, cabe ao Ministério da Educação modificar as características do ensino básico, não só com a construção de bibliotecas e suprimento de livros, como também a reformulação da Base Nacional Comum Curricular, mediante o incremento de uma abordagem mais lúdica e dinâmica desses assuntos, no intuito de tornar a leitura mais prazerosa e, cumprir o “habitus” na sociedade brasileira.