Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 12/01/2021
É sabido que a prática da leitura pela população tem sido tema de discussão constante nas últimas décadas, uma vez que, o hábito literário brasileiro é tido como abaixo da média em pesquisas como a “Retratos da Leitura”. Contudo, é necessário entender as ramificações socioeconômicas que permitem que tal realidade exista e se mantenha. Logo, se faz necessária a análise da percepção do livro pelo Estado e a sociedade, como também da acessibilidade financeira do livro.
Em primeiro lugar, a explicitação da ideia de fetichismo de mercado, apresentada por Karl Marx, é indispensável para o pleno entendimento da conjuntura discutida. Posto que, Marx entende o fetichismo como a sobreposição do lucro sobre o valor social do objeto, é possível inferir que, tal pensamento se aplica à situação da leitura no Brasil, no momento em que se entende o livro como principal meio para a prática literária. Portanto, as ameaças de aumento da tributação sobre o livro implicam o processo de construção de sua posição enquanto artigo de luxo, e, consequentemente, dificultam que o corpo social se beneficie da leitura.
Em segundo lugar, é imprescindível que, a realidade socioeconômica do contigente populacional brasileiro e a acessibilidade do livro ou de espaços de leitura sejam analisadas e comparadas. Visto que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade dos brasileiros vivia com menos de quinhentos reais por mês em 2019, e, sabendo que o preço médio de um livro no Brasil, segundo a Câmara Brasileira do Livro, é dezenove reais, fica clara a impossibilidade da manutenção do hábito contínuo de leitura, o que se solidifica com outra estatística do IBGE, a qual informa que uma biblioteca pública atende trinta e quatro mil habitantes. Assim sendo, a negligência do Estado para com os hábitos benéficos a sociedade é perceptível, devido ao distanciamento entre população e literatura, além da má distribuição de bibliotecas públicas.
Tendo em mente o que foi discutido, conclui-se que a ameaça de aumento da tributação de livros, aliada a escassez de centros de leitura públicos, revela a negligência estatal para com o bem-estar intelectual público. Sendo assim, a fim de intervir na questão em prol da facilitação e disseminação do hábito de leitura da população brasileira, é vital que ocorra o encaminhamento de um projeto de lei por parte do Ministério da Educação à Câmara dos Deputados, que garanta a mínima tributação de artigos literários, assim como o resguardo do acesso a bibliotecas como direito do cidadão brasileiro, sendo este possibilitado pela estruturação de uma rede federal de bibliotecas públicas composta pelo trabalho conjunto do Ministério e de Secretárias Estaduais de Educação, de modo a preservar o hábito de leitura do corpo social brasileiro, independentemente do poder de consumo individual.