Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 13/01/2021

A chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, revolucionou o cenário cultural do Rio de Janeiro, dentre outros motivos, pela criação da primeira editora brasileira: a Impensa Régia. Contudo, em razão da alta taxa de analfabetismo no país, os livros tornaram-se um produto destinado à elite nacional. Nos dias atuais, mais de dois séculos após o evento histórico narrado, permanecem obstáculos para a popularização das obras literárias e, consequentemente, do hábito da leitura entre os brasileiros, seja em decorrência da elitização econômica e simbólica, ainda presentes, seja pela precariedade das políticas públicas voltadas para a educação.

Sob esse viés, em primeiro lugar, é imperioso destacar os elitismos econômico e simbólico como entraves à acessibilidade às obras literárias e à formação de um país de leitores. Nesse sentido, embora os livros sejam isentos de impostos, conforme a Constituição Federal de 1988, o preço deles, frequentemente, é incompatível com a renda de muitas famílias brasileiras, o que se torna um empecilho à aquisição de livros. Adicionalmente, a ideia de que os livros são um produto para a elite intelectual não se restringiu ao período Joanino, mas continua sendo endossada pelos detentores históricos do capital cultural. Isso ocorre porque, de acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a classe social é definida também pelos valores culturais acumulados, o “habitus” do grupo, de forma que a leitura é associada a certo grau de elitismo, fator de exclusão simbólica das demais classes.

Em segunda análise, é necessário pontuar a negligência estatal para com a promoção de um ensino escolar voltado à prática leitora. Prova disso é que apenas 55% das escolas brasileiras têm biblioteca- conforme dados apresentados em audiência pública na Câmara dos Deputados-, além do alto índice de analfabetismo funcional dos alunos- principalmente nas instituições públicas- que têm dificuldades para ler e interpretar textos simples. Esse cenário grave da educação nacional, causado, em grande parte, pela omissão dos entes federados, é um obstáculo determinante para o hábito da leitura, haja vista que a efetiva fruição de uma obra decorre de sua compreensão total.

Portanto, é urgente que a criação de uma cultura leitora torne-se prioridade da sociedade e dos governantes. Diante disso, cabe à sociedade civil organizada, por meio de feiras literárias- em locais acessíveis da cidade, como nas universidades- e por campanhas nas mídias sociais, promover o contato de toda a comunidade com os livros, a fim de descontruir a ideia histórica de que os livros são elitizados. Ademais, o Ministério da Educação deve reformular o ensino básico, seguindo a meta de que as crianças sejam realmente alfabetizadas e, assim, possam ler e compreender os textos com facilidade. Tais medidas garantirão a inclusão popular na revolução cultural do país, iniciada em 1808.