Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 14/01/2021

Aristóteles, importante filósofo da Antiguidade, preconizou que a diferença entre os homens e os outros animais está na sua capacidade de, por meio do conhecimento e da cultura, alcançar a “plenitude humana”. Entretanto, hoje, os livros – principais viabilizadores dessa noção aristotélica – mostram-se tolhidos das práticas culturais dos cidadãos brasileiros. Destarte, cabe analisar como a mercantilização desses objetos e a avareza cognitiva agravam essa problemática.

Primeiramente, afirma-se que a “Indústria Cultural” corrobora a transformação de obras literárias em meros produtos. A respeito dessa teoria, os pensadores da Escola de Frankfurt argumentam que, no contexto capitalista contemporâneo, os objetos culturais, como os livros, são dispostos proporcionalmente à renda do indivíduo, portanto, quanto mais capital, tanto mais acesso a esses bens. Nesse contexto, em um país que, em 2017, foi classificado entre os dez mais desiguais do mundo segundo o Índice de Gini, essa mercantilização literária favorece poucos em detrimento de muitos no Brasil, já que impossibilita a prática da leitura e a plenitude de Aristóteles a todos.

Ademais, aos que conseguem acesso à leitura, a impaciência parar ler da Era Digital dificulta essa prática. Segundo Maryanne Wolf, neurocientista que estudou e formulou o conceito de “impaciência cognitiva”, as tecnologias da atualidade criaram, nos indivíduos, o hábito de “ler em diagonal”, isto é, uma leitura rápida e despreocupada em absorver por completo o que se lê. Sendo assim, essa avareza ante textos, em geral, dificulta o próprio ato da leitura, e, por conseguinte, o conteúdo dos livros – o que permite a plenitude aristotélica – não é absorvido na íntegra.

Diante de tudo isso, nota-se que é dever do Ministério da Educação, em parceria com as empresas nacionais de comercialização literária, possibilitar a compra de livros sem necessitar da renda individual, por meio da criaçãp de uma carteira digital, passível de pecúlio, mas não de saque, pela qual, utilizando de verbas governamentais, os indivíduos possam adquirir essas obras em formato de “e-books”. Além disso, compete-lhe, também, o contorno da “impaciência cognitiva” de Wolf mediante ações educacionais, ou seja, um ensino básico que mude essa idiossincrasia da Era Digital na vida dos brasileiros desde cedo, a fim de não só ampliar o acesso a esse produto cultural, mas também evitar a leitura despreocupada com o conteúdo, alinhando-se às ideias de plenitude aristotélicas.