Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 25/10/2021

Em “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago desenvolve uma narrativa trágica centrada na crítica ao estado de irreflexão da sociedade pós-moderna, por intermédio de uma epifânica cegueira que acomete os indivíduos do meio social. Ao considerar tal sintoma para fundamentar a discussão sobre os desafios para a prática da leitura no Brasil, vê-se que, o corpo social hodierno desenvolveu uma cegueira moral ao negligenciar a importância dessa ação para o cotidiano. Dessa forma, cabe analisar de que forma a leitura é benéfica, bem como esclarecer os obstáculos para a disseminação do hábito leitor no país.

A priori, é preciso reconhecer que, além de colaborar para o entretenimento, a leitura é essencial para a formação do senso crítico e de opiniões políticas do indivíduo. Nessa perspectiva, atesta-se a percepção de Saramago, na medida em que a sociedade tornou-se cega ao não refletir sobre a importância do hábito de ler, o que acarreta em uma visão limitada de mundo. Há, evidentemente, a partir disso, a grande possibilidade de manipulação desses indivíduos, além da dificuldade de expressão e compreensão individual e coletiva. Dessa forma, há o prejuízo na capacidade crítica e a maior suscetibilidade a aceitar o senso comum como verdade absoluta.

Outrossim, é inegável que no Brasil há muitos desafios para a prática da leitura , desde altos preços de livros, até a falta de incentivo em escolas para disseminar esse hábito entre os alunos. Sob essa ótica, ganha voz a percepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “O mal estar da pós-modernidade”, ao discorrer sobre as chamadas “instituições zumbis”, organismos sociais que, embora importantes, perderam, com o tempo, a forma. À luz dessa ideia, é notório que o Estado tornou-se uma instituição zumbi, visto que não há investimentos adequados que incentivem a leitura tanto no ambiente escolar quanto na vida cotidiana, como visitações em bibliotecas públicas e sarais. Logo, vê-se a formação de crianças e adolescentes alienados e desinformados.

Assim, diante dos argumentos supracitados, é preciso concentrar esforços em solucionar esse impasse. Inicialmente, cabe a Secretaria Nacional da Cultura a tarefa de elaborar campanhas, por meio de veículos diversos como redes sociais e TV, visando informar sobre os benefícios da leitura, bem como realizar ações fiscais para baratear o custo de livros no país. De modo complementar, o Ministério da Educação, órgão responsável pela formação dos cidadãos, deve incentivar a leitura nas escolas públicas e privadas do país, a partir de rodas de leitura e visitações em bibliotecas e feiras literárias, com vistas a formar alunos com consciência de mundo. Espera-se que, com ações desse tipo, os desafios para essa prática sejam superados, de modo a findar a cegueira da razão.