Desafios para a prática da leitura no Brasil

Enviada em 26/10/2021

Lima Barreto, em “Os Bruzundangas”, publicado postumamente em 1922, faz uma sátira da vida brasileira nos anos iniciais da Primeira República, nos quais diversos problemas sociais, econômicos e culturais eram vivenciados pela teia coletiva. Fora do contexto literário, quase um século após a sua publicação, infelizmente, ainda são persistentes imbróglios no seio social tupiniquim, uma vez que a falta da prática de leitura impede o funcionamento harmônico das engrenagens nacionais. Com efeito, essa chaga mantém-se seja pela letárgica atuação coletiva, seja pela inobservância do poder público. Urge, assim, a necessidade de analisar e de buscar meios para atenuar esse cenário.

Nesse contexto, é incontrovertível que a omissão social é fator cristalizador desse infortúnio. A respeito disso, o sociólogo Pierre Bourdieu afirma que a maneira a partir da qual os indivíduos incorporam, reproduzem e legitimam a estrutura social a que pertencem, resultará na promoção de padrões comportamentais. Nessa lógica, sob o prisma do pensamento bourdiano, é notório que a ineficaz atuação da sociedade frente à escassez do ato da leitura é resultado de deturpados costumes - enraizados na teia coletiva -, como, por exemplo, a falta de incentivo por parte da família. Em consequência disso, a teia social encontra-se em anomia; prova disso é que o Brasil ocupa a 84º posição no ranking de 189 países analisados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Logo, enquanto a sociedade não romper essa problemática, o país enfrentará dilemas como esse.

Por outro lado, é fulcral destacar a inoperância estatal como agente catalisador dos desafios vigentes. Nesse viés, consoante o pensamento filosófico de John Rawls, a “justiça social” é uma construção moral e política baseada na igualdade de direitos. No entanto, essa tese não é vivenciada no hábito, haja vista as ínfimas ações do Estado- gestor do bem-estar coletivo-, as quais resultam em políticas públicas falhas que tornam ineficazes as garantias conquistadas em 1988 com a “Constituição Cidadã”- como o direito à educação no seu artigo 6º. Destarte, enquanto a máquina administrativa não remodelar sua postura, o Estado Democrático de Direito será utopia.

Para tanto, o Poder Executivo, sobretudo na voz do Ministério da Educação, deve projetar um Plano Nacional de Erradicação do analfabetismo funcional – que é causado pela falta de leitura -, por intermédio do aumento dos repasses financeiros - fomentados pela alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias - para a infraestruturação física e para a logística deste plano, com intuito de efetivar as normas previstas na Carta Magna. Ademais, o corpo social por meio de agremiações e de associações locais, deve promover debates, palestras e ouvidorias para romper com os padrões comportamentais. Com isso, a modernidade será afastada dos dilemas enfrentados pela sociedade bruzundanguense.