Desafios para garantir a vacinação dos brasileiros
Enviada em 02/11/2018
Em “Ética a Nicomaco”, Aristóteles diz que a finalidade da organização política e social é o bem humano. Destarte, a dinâmica coletiva deveria partir desse pressuposto. O que ocorre hodiernamente, porém, segue o fluxo contrário, haja vista as intempéries que desafiam a homogeneidade da vacinação no Brasil. Nesse contexto, é inquestionável a primordialidade de atentar-se a esse problema, o qual ocorre, tristemente, devido não apenas à postura indolente da sociedade como à negligência estatal. A princípio, cabe ressaltar que há uma cultura de vacinação tardia - apenas em casos de perigo eminente - que configura-se uma barreira à cobertura vacinal no país. A exemplo disso foi o recente caso de alta demanda por vacina contra a febre amarela, que resultou no fracionamento da dose. Além disso, a errônea sensação de indispensabilidade da vacina em outras fases além da infância prejudica a vacinação universal. Consoante ao sociólogo Karl Mannheim, a visão de um indivíduo acerca da realidade é condicionada socialmente. Dessa forma, tais condutas equivocadas são transmitidas de geração a geração, inviabilizando o programa vacinal.
Outrossim, embora a Constituição cidadã de 1988 contemple o direito à saúde, o Estado não o efetiva. Conforme o filósofo contratualista John Locke, o governo surge para preservar direitos inequívocos. Logo, verifica-se que esse conceito encontra-se deturpado no Brasil, à medida que a deficiência de logística e estruturação do processo de vacinação torna-se um desafio para assegurar o direito à vacina. Nesse sentido, a carência de registro nominal universal e de acompanhamento continuado do público-alvo determina uma barreira à garantia da vacinação da população. O que, consequentemente, mantém o direito referido no papel.
Logo, urge que o Estado, cujas ações influenciam o senso comum, promova campanhas de amplo alcance de cunho elucidativo acerca da imprescindibilidade da vacina como ferramenta de promoção da saúde, independendo da faixa-etária ou risco eminente, com o fito de desconstruir a relativização do perigo das doenças erradicadas e incitar maior abrangência das vacinas. Somado a isso, cabe à Escola elaborar palestras e materiais educativos e instrutivos acerca da magnitude da vacinação, com vistas a alcançar o público mais jovem, no intuito de conscientiza-los e, por conseguinte, a sociedade. Ainda, cabe também ao Estado conferir verba para o aprimoramento do SI-PNI (Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações) com o objetivo de criar um registro nominal universal de pessoas vacinadas a fim de obter maior controle da cobertura vacinal; bem como articular as Unidades Básicas de Saúde para a vacinação e acompanhamento domiciliar do público-alvo para que seja possível garantir a vacinação da população brasileira. Assim poder-se-á assegurar o bem humano.