Desafios para garantir a vacinação dos brasileiros

Enviada em 21/09/2019

Em meados da década de 1920, Monteiro Lobato criou o personagem Jeca Tatu. Vítima da pobreza e das moléstias presentes no ambiente rural, o trabalhador vê seu destino se transformar quando se liberta da ignorância e adquire um estilo de vida saudável, pautado na prevenção de agravos e promoção da saúde. Fora da ficção, no entanto, a alta queda dos índices de imunização no Brasil reflete a despreocupação dos brasileiros em relação às doenças infecciosas. Quase um século após a concepção do personagem, observa-se a persistência dos desafios para garantir a efetiva vacinação dos brasileiros, seja pelos obstáculos financeiros - evidenciado pelo frequente desabastecimento de vacinas -, seja pelo descuido dos pais, que não se preocupam em imunizar seus filhos.

Em primeiro lugar, é preciso analisar o problema sob um viés econômico. A falta de estrutura dos postos médicos e hospitais compromete o funcionamento do sistema de saúde. Nesse sentido, a supressão de recursos financeiros se interpõe como um obstáculo à eficácia da imunização em âmbito nacional. A despeito da garantia do direito à saúde pela Constituição de 1988, a ausência de uma regulamentação que estruture a aplicação da Carta Magna, culmina na má gestão dos recursos públicos. Ressalta-se, ainda, que a crise econômica, acentuada pelos casos de corrupção, compromete a qualidade dos serviços prestados, o que dificulta o acesso da população às vacinas.

Ademais, é necessário reconhecer que a falta de informação interfere diretamente na escolha dos pais de levarem seus filhos para vacinar. O desconhecimento sobre as consequências da “não imunização” promove o desequilíbrio do sistema de saúde, uma vez que o mesmo se fundamenta na redução de custos por meio do investimento em ações preventivas. Para Durkheim, a sociedade é um corpo biológico, no qual a interação entre as partes se impõe como um mecanismo de garantia da coesão e igualdade. Assim, a inexistência do engajamento de todas as camadas sociais, abre caminhos para a recidiva de inúmeras doenças como, por exemplo, sarampo e rubéola.

Portanto, torna-se imprescindível a adoção de políticas mediadoras a fim de contornar essa realidade. Na busca pela ampliação da cobertura nacional da imunização e, consequentemente inclusão de todas as comunidades, cabe ao Ministério da Saúde a promoção da melhoria do sistema público de saúde por meio de investimentos direcionados às unidades básicas e às campanhas de vacinação. Ademais, é necessário que as prefeituras criem um projeto focalizado na conscientização da população sobre os benefícios da vacinação infantil mediante a realização de oficinas culturais ministradas por profissionais da saúde. A partir disso, espera-se que o Brasil possa conceber cidadãos conscientes como Jeca Tatu e, assim, elevar os níveis de vacinação do país.