Desafios para garantir a vacinação dos brasileiros

Enviada em 23/10/2020

A obra cinematográfica britânica “Eu, Daniel Blake”, do diretor Ken Loach, acompanha a história de um senhor - Daniel - que sofre um ataque cardíaco e passa a lutar pelos direitos que deveriam ser concedidos pelo governo diante do quadro de saúde em que se encontra, sendo tratado, entretanto, de forma tão desumana que a desilusão o leva a óbito. Saindo do tablado da ficção e trazendo a ideia central do filme para a realidade atual brasileira, percebe-se que os desafios para garantir a vacinação dos brasileiros estão intimamente ligados a essa arbitrariedade com que o Estado trata as questões de saúde e, para além disso, à ausência de um sistema educacional público eficiente no país.

Em primeira análise, é evidente que o processo de vacinação apresenta desafios frente à falta de “tato” das instituições governamentais no tratamento das questões de saúde no Brasil. Exemplo disso aconteceu durante o mandato de Rodrigues Alves, no início do século XX, quando Oswaldo Cruz - o então diretor de saúde pública do país - decretou a obrigatoriedade das vacinas num contexto sócio-espacial em que os cidadãos brasileiros não tinham acesso a informações que comprovassem a legitimidade daquela ação - o que, mais tarde, culminou na “Revolta da Vacina”. No cenário atual, observa-se, ainda, a imposição de decisões estatais referentes à vacinação que, quando não são acompanhadas de uma carga informacional sólida e capaz de dialogar com diferentes camadas da sociedade, surtem o efeito contrário e acabam por diminuir o engajamento das campanhas.

Em segunda análise, vale salientar que a falta de investimentos na qualidade da educação do país configura, ainda, um desafio no que diz respeito à garantia da vacinação do povo brasileiro. Isso porque a camada menos favorecida economicamente, por estar inserida em um sistema educacional pouco preocupado com a autonomia de pensamento, não desenvolve consciência dos seus direitos constitucionais como, por exemplo, o direito inalienável de acesso às vacinas distribuídas pelo Estado - garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Para além disso, percebe-se que a ausência da educação sanitária - em um recorte educacional mais específico - retroalimenta a necessidade de vacinação, visto que a falta de higiene e saneamento potencializam o surgimento de inúmeras doenças.

Portanto, depreende-se que os desafios na garantia da vacinação dos brasileiros, ligados à postura governamental frente às questões públicas de saúde e agravados por um sistema educacional falho, precisam ser amplamente postos em pauta. Para tanto, é necessário que o Ministério da Saúde, em conjunto com as instituições de ensino, promova debates acerca do tema, através de palestras e discussões em salas de aula, com a presença de especialistas nas áreas de medicina, biomedicina e saúde pública, com o objetivo de educar as novas gerações quanto à importância plena de se vacinar.