Desafios para garantir a vacinação dos brasileiros
Enviada em 16/11/2020
Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, do autor português José Saramago, é narrada a história de uma epidemia de cegueira branca, a qual se espalha por uma cidade e causa um grande colapso na vida das pessoas, fato que compromete as estruturas sociais. No contexto atual, não longe da ficção, percebem-se aspectos semelhantes no que tange à garantia da vacinação, visto que a sociedade brasileira parece não enxergar os desafios que essa questão ainda sofre. Assim, seja por razões históricas, seja pela influência de notícias falsas, esse tema é uma grave questão social que precisa ser resolvida.
Em primeiro lugar,deve-se pontuar o motivo histórico que, infelizmente, atua como causa dessa problemática. Nesse sentido, a Revolta da Vacina — ocorrida na primeira metade do século XX, na cidade do Rio de Janeiro — foi um motim popular resultante da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, questão que levantou conflitos e protestos. Ademais, uma pesquisa realizada pelo Programa Nacional de Imunização, em 2016, demonstrou que os índices da vacina contra a poliomielite foram os menores em 12 anos. Sob essa égide, observa-se, na atualidade, que os entraves que dificultam as campanhas de vacinação possuem, na verdade, raízes históricas, ou seja, são o reflexo de um passado conturbado e que justifica a persistência dessa triste conjuntura na contemporaneidade.
Além disso, a disseminação de notícias falsas também está entre as causas desse problema. De acordo com John Locke, filósofo inglês, todos nascem como uma “tabula rasa”, sem personalidade definida, sendo o meio responsável pela formação do caráter dos cidadãos. De maneira análoga a esse pensamento, percebe-se a capacidade de persuasão que as esferas midiáticas — como jornal, rádio e televisão— podem exercer, uma vez que os indivíduos, eventualmente convencidos por “fake news” transmitidas nesses veículos de comunicação, podem acreditar em falácias acerca das vacinas. Um exemplo disso ocorreu em 1998, quando o médico britânico Andrew Wakefield apresentou uma pesquisa preliminar, publicada na conceituada revista Lancet, descrevendo 12 crianças que desenvolveram comportamentos autistas pelo uso da vacina, notícia essa que, posteriormente, foi comprovada como falsa, mas gerou um movimento antivacina em nível global.
Portanto, as mídias televisivas — como formadoras de opinião pública — devem veicular campanhas para sensibilizar a população quanto à importância da vacina, por meio de propagandas transmitidas nos canais da televisão aberta, com a finalidade de combater as desinformações e as questões históricas enraizadas que perpetuam esse problema, Dessa forma, o contexto vivenciado será gradativamente minimizado e se distanciará da realidade narrada por Saramago.