Desafios para melhorar o precário saneamento básico brasileiro
Enviada em 24/07/2020
Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os Retirantes”, uma família que sai de uma região a outra em busca de melhores condições de vida. Semelhante ao cenário evidenciado pelo autor, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca do direito ao saneamento básico no Brasil. As demandas para findar os impasses para a universalização desse acesso, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à desigualdade provocada pela estratificação social.
A princípio, a negligência do Estado é um fator relevante quando se observa o significativo número de famílias que não possuem mínimas condições de higiene em suas casas. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tende a tomar decisões estratégicas que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que o investimento para suprir a falta de saneamento básico que afeta as camadas mais marginalizadas da sociedade seja negligenciado em detrimento de pautas mais populistas, que garantem mais votos. Logo, a manutenção do poder de muitos gestores no Brasil ocorre às custas da insalubridade na vida de muitos brasileiros.
Outrossim, um grupo social que é limitado de receber seus direitos plenos de sanidade representa o retrocesso do desenvolvimento coletivo. Consoante o conceito de “capital cultural”, de Pierre Bourdieu, determinadas práticas e condições são acessadas majoritariamente por camadas mais elevadas da sociedade, o que contribui para a distinção de classes. Dessarte, com a falta da infraestrutura do saneamento, a qualidade de vida proporcionada por fatores como o abastecimento de água limpa e o tratamento de resíduos sólidos fica inacessível à parcela da população mais vulnerável. Assim, ao terem sua saúde e higiene afetadas, muitos brasileiros ficam reféns de sua própria condição, o que impede o progresso social.
Em vista desses fatos, é indubitável que medidas são essenciais para reverter a situação. Primeiramente, cabe ao Governo, por intermédio de projetos, investir em um saneamento básico planejado para a população mais vulnerável, para que a desigualdade de salubridade no Brasil deixe de existir e todos possam manter sua qualidade de saúde e higiene. Ademais, cabe aos cidadãos, por meio de manifestações pacíficas e projetos de lei, cobrar e pressionar governantes a resolver o impasse, para que todos possam se sensibilizar a ajudar os que possuem menos voz. Desse modo, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.