Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil
Enviada em 23/12/2020
Em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago ressalta a importância de ter olhos quando todos os perderam. Sob essa ótica, nota-se uma espécie de cegueira social, intrincada na sociedade, que impede os indivíduos de enxergarem problemas como o capacitismo no Brasil. Diante disso, a equivocada associação de deficiência à incapacidade contribui para a permanência dessa patologia social, a qual demanda discussões acerca das suas consequências.
De início, é frequente, no cotidiano brasileiro, observar filmes e novelas que, ao apresentarem personagens com algum tipo de deficiência, reduzem as histórias destes à deficiência que possuem e às limitações decorrentes desta. Atitudes infelizes como essa, apesar de serem frequentes, são capacitistas, pois não tratam da deficiência como característica da pessoa, mas sim como uma patologia. Portanto, é evidente que o capacitismo é fruto da estigmatização enraizada na sociedade acerca de que as pessoas com deficiência são limitadas. Com isso, torna-se claro que a indústria de entretenimento contribui para a persistência do capacitismo na sociedade brasileira, visto que associa pessoas deficientes à incapacidade, o que propaga a patologização da deficiência.
Como consequência disso, pessoas com deficiência sofrem com baixa autoestima e falta de oportunidades de trabalho. Apesar de haver legislação para assegurar que uma determinada quantidade de empregados seja composta por pessoas com deficiência, a capacidade intelectual e física destas é sempre questionada no ambiente laboral. Diante desse cenário, essas pessoas sentem-se inferiores e com a necessidade constante de mostrar suas habilidades e capacidades. Além disso, a patologização das PCD’s (Pessoas com Deficiências), exercida pela sociedade, desperta nelas o sentimento constante de que suas deficiências são algo a ser tratado e, por isso, as torna inferiores. Nesse sentido, os efeitos psicossociais negativos nessas pessoas são potencializados através do preconceito sofrido no ambiente de trabalho.
Portanto, é evidente que a indústria de entretenimento, ao patologizar os deficientes, fortalece o preconceito no ambiente laboral, associando-os à incapacidade.Logo, é basilar que o Estado - na figura do Poder Legislativo - garanta vagas, mediante legislação específica, para PCD´s não apenas em empresas públicas e privadas, mas também em produções artísticas, como filmes e novelas- inclusive conteúdos infantis. Ademais,o Ministério Público deve fiscalizar produções artísticas que limitam o enredo de personagens PCD´s às suas deficiências e dramatizam as suas limitações.Tais medidas devem ocorrer mediante lei federal, com o fito de dar visibilidade e tratamento igualitário aos deficientes. Assim, a cegueira social que não vê o problema do capacitismo poderá ser minimizada.