Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil

Enviada em 26/12/2020

“Os preconceitos têm mais raízes  que os princípios”. Essa frase foi dita no século XV pelo filósofo Maquiavel e, infelizmente, ainda hoje ilustra a realidade brasileira no que tange aos percalços do enfrentamento ao capacitismo. Nesse sentido, a forma como as pessoas com deficiência (PcD) são representadas pelos meios de comunicação e políticas públicas ineficientes reforçam estereótipos e dificultam o enfrentamento a esse tipo de discriminação.

Em primeira análise, é inegável que produções artísticas voltadas para o grande público, como séries de TV e filmes, mostram PcD como incapazes e limitadas. Essa constatação foi confirmada por um estudo divulgado em 2018 pela Ruderman Family Foundation, a qual concluiu que, em quase metade das 280 produções analisadas, havia a presença de PcD, porém, quase sempre representadas de forma pejorativa. Nesse contexto, a fundadora  do maior canal no YouTube sobre deficiência no Brasil, Mariana Torquado, afirma que entre todas as etapas de desconstrução de crenças preconceituosas, aquelas relativas às deficiências são as últimas a serem quebradas. Assim, segundo a ativista, mesmo dentro de ambientes  progressistas, o debate acerca de medidas que incluam PcD na vida em sociedade ainda enfrenta  barreiras para progredir; que vão desde a falta de representatividade  nas obras da sétima arte à oportunidades no mercado de trabalho.

Em segunda análise, desde 1991, com a Lei de Cotas, que obriga empresas com mais de 100 funcionários a contratarem PcD, há políticas públicas voltadas à inclusão dessa camada da população. Porém, o que se nota é a insuficiência dessas medidas, visto que tal lei, por exemplo, obriga que as empresas com mais de 100 funcionários destinem de 2 a 5% de suas vagas para PcD,enquanto o Censo Demográfico divulgado em 2010 pelo IBGE mostra que cerca de 13% da população possui alguma deficiência e precisa de adaptações. Com a discrepância entre o percentual de brasileiros que constituem esse segmento e as vagas destinadas à eles, fica clara a exclusão a qual estão submetidos e como o Estado tem falhado em  promover sua inclusão, direito previsto na Carta Magna brasileira.

Em suma, a classe artística, por meio de seu poder de influência sobre as grandes massas, deve pressionar a indústria cinematográfica para promover a contratação de mais profissionais com deficiência, a fim de que haja maior pluralismo durante a criação de filmes e séries e menos personagens deficientes esteriotipados sejam representados, de forma que a deficiência seja com o tempo normalizada. Ademais, o Congresso deve propor o aumento do percentual de cotas para PcD, tornando-as mais justas. Somente assim, as profundas raízes do capacitismo poderão ser arrancadas da sociedade brasileira.