Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil

Enviada em 28/12/2020

A História ensina que Beethoven, notadamente surdo, encostava a ponta de um canudo em sua orelha e a outra no piano para que pudesse sentir a vibração das notas que não podia ouvir. Mesmo desencorajado pelos seus colegas, o músico alemão conseguia compor sinfonias estupendas apesar de sua deficiência auditiva. Hodiernamente, a existência do preconceito contra pessoas corpoatípicas não foi extinta, apenas mudou a forma como violenta essa população. Nesse contexto, a superação do capacitismo encontra impasses atrelados ao capitalismo e ao senso comum.

Mormente, o primeiro grande desafio a ser vencido no que tange a essa problemática é a mentalidade capitalista. A esse respeito, o sociólogo Zygmunt Bauman afirma, em sua obra “Vida para Consumo”, que na sociedade de consumo, o consumidor também é uma mercadoria.  Nessa lógica, os empregadores utilizam-se de mão de obra capacitada para que consigam produzir o maior lucro possível e, para isso, contratam funcionários saudáveis e priorizam pessoas que não possuem nenhum tipo de deformação corporal. Dessa maneira, o indivíduo com deficiência é excluído da sociedade, visto que ele encontrará dificuldades para adentrar no mercado de trabalho, por mais que ele seja mentalmente capaz como as outras pessoas. Destarte, enquanto o capacitismo existir, este será usado pelo capitalismo para tornar o corpo social ainda mais excludente do que já é.

Outrossim, o preconceito contra deficiêntes está inserido no senso comum, o que ajuda a perpetuá-lo. Sob esse viés, o sociólogo francês Michel Foucault diz que quanto mais desviante do padrão uma pessoa é, mais rechaçada pela sociedade ela vai ser, o que foi descrito em seu livro “Vigiar e Punir”. Nesse sentido, esse pensamento toma contornos específicos quando se trata de pessoas portadoras de deficiência, visto que elas são vistas como inferiores pelo fato não terem a funcionalidade completa do corpo. Isso é evidenciado pela pesquisa da professora de Letras da UFMG, Vera Lopes, a qual afirma que palavras como “retardado” e “surdo”, que servem para designar pessoas portadoras de deficiência, hoje em dia assumiram uma conotação totalmente pejorativa pela população e são usadas para ofender e rebaixar a pessoa com deficiência a uma subcategoria de ser humano.

Urge, portanto, uma solução definitiva para esse problema. Para isso, cabe à Escola, instituição a qual possui grande poder de influência sobre a população, criar, na grade curricular do ensino fundamental, uma matéria que aborde o capacitismo, ensinando que é errado ofender outras pessoas pelo que elas são e todos devem ser respeitados. Isso será possível por meio da docência de pedagogos pós-graduados em educação infantil. Assim, espera-se que o preconceito contra pessoas corpoatípicas seja atenuado, indo a favor de uma sociedade mais acolhedora e justa.