Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil
Enviada em 28/12/2020
No romance “O corcunda de Notre Dame” de Victor Hugo, de 1831, Quasímodo, personagem com cifose e deficiência dos membros inferiores e auditivos, é visto como sinônimo de monstruosidade e inépcia pela sociedade. Fora da ficção, no contemporâneo cenário nacional, enfrentam-se impasses semelhantes ao do clássico francês, os desafios para o combate ao capacitismo. Nesse sentido, é possível ressaltar ora a visão deturpada que associa deficiência à incapacidade funcional, ora a falta de conscientização sobre a importância da inclusão e acessibilidade, como causas frente ao fenômeno.
Primeiramente, é necessário avaliar como uma construção social preconceituosa é fator contribuinte ao cenário capacitista. À vista disso, a perspectiva de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal” abrange a ideia de que as atrocidades da humanidade provêm da irreflexão e não da malevolência. Sob esse viés, é possível depreender que a associação do sujeito deficiente a alguém limitado, incapaz e indigno é uma visão errônea e preconceituosa, construída sobre ideais antigos e equivocados. Sendo assim, tal fenômeno corponormativo - que qualifica um modelo “normal” em detrimento de outros - remonta um temor pela dificultação no cotidiano da população deficiente, portanto, cabe a reflexão e quebra do que está sendo perpetuado.
Ademais, a inércia na criação de medidas de acessibilidade e inclusão à população portadora de necessidades especiais está ligada a inconcientização por parte governamental. À luz disso, de acordo com o censo do IBGE, 24% da população possui dificuldade na realização de atividades como enxergar, ouvir, caminhar ou apresenta deficiência intelectual, no entanto, tal grupo representa 1% da população com carteira assinada no. Dessa forma, os dados apresentados são fundamentais para a compreensão de como a população deficiente, ainda que numerosa, enfrenta impasses para garantir representatividade no trabalho formal. Nesse sentido, tal questão, somada aos desafios de acessibilidade física e discriminação social, definem a problemática a ser resolvida pelo Governo.
Depreende-se, portanto, a necessidade de se combater o capacitismo no Brasil. Para tanto, cabe ao Ministério da Saúde intervir pela organização de debates em praças comuns, com a temática “Desmistificando o preconceito”, mediadas por psicólogos, sociólogos, representantes da população em necessidades especiais e a população local, com intuito de descontruir visões arcaicas de julgamento. Paralelamente, a Receita Federal deve destinar maior fração dos tributos a medidas de acessibilidade física e empregatícia nas cidades e regiões onde tal acesso não é difuso, objetivando garantir democratização do acesso a todos. Assim, o Brasil caminhará para um futuro absterso a todos e contrário ao cenário discriminatório retratado por Victor Hugo em “O corcunda de Notre Dame”.